Malícia deplorável

O grito de morte do Behemoth ressoou por toda a área. A ponte de pedra estava desmoronando com um enorme barulho estridente. E assim… Hajime desapareceu dentro do abismo acompanhando os destroços. Essa cena se passou em câmera lenta para Kaori, a enchendo de desespero.

Os eventos da última noite passaram repetidamente por sua mente. Em um quarto iluminado pelo luar, ela sentou e conversou com Hajime enquanto bebia a imitação de chá preto preparada por Hajime, que mesmo se pudesse ser elogiado, não poderia ser considerado delicioso. Foi a primeira vez que os dois tiveram uma conversa séria. Inquieta por culpa de seus pesadelos, ela fez uma súbita visita para Hajime. Mesmo que Hajime estivesse consideravelmente surpreso, ele ainda a escutou com atenção e, antes que ela percebesse, seu desconforto passou.

Só depois de voltar para seu quarto com um humor exultante, ela notou quão ousadamente ela estava vestida e tremeu de vergonha. Quando ela se lembrou que Hajime não teve nenhuma reação em particular, ela ficou desapontada e se perguntou se não tinha charme o bastante. Sua colega de quarto, Shizuku, estava surpresa quando ela viu Kaori fazendo todos os tipos diferentes de expressões engraçadas sozinha, o que provavelmente se tornaria uma história constrangedora no futuro.

Nessa noite, a coisa mais importante foi a promessa que ela fez para “proteger Hajime”. Foi uma promessa proposta por Hajime para tranquilizar Kaori de sua ansiedade. A cena de Hajime desaparecendo no abismo diante de seus olhos continuou atormentando sua mente.

Em algum lugar a distância, um grito pôde ser ouvido. Quando Kaori se deu conta que era a sua própria voz, ela fez uma careta enquanto voltava para a realidade.

(Kaori): “Me solte! Eu tenho que ir até Nagumo-kun! Eu prometi! Eu vou… eu disse que iria proteger ele! Me solte!”

Vendo Kaori que parecia estar a ponto de pular atrás dele, Shizuku e Kouki desesperadamente a seguraram. Enquanto pensavam “Como um corpo tão magro pode ter tanta força?”, eles continuaram a segura-la.

Se ela continuasse se debatendo assim, ela poderia acabar se machucando. Além disso, eles não poderiam simplesmente deixa-la ir. Se eles a soltassem, ela definitivamente pularia no abismo. Ela não tinha nem sombra de sua calma de sempre, parecendo completamente louca. Não, seria mais apropriado dizer que ela tinha uma expressão aflita.

(Shizuku): “Kaori! Você não pode! Kaori!”

Como Shizuku podia entender os sentimentos de Kaori, ela não conseguia encontrar as palavras certas. Tudo que ela poderia fazer era chamar o nome dela desesperadamente.

(Kouki): “Kaori! Você também está tentando se matar? Já é tarde demais para Nagumo! Se acalme! Você vai se machucar!”

Kouki tentou o seu melhor para mostrar para Kaori o quão preocupado ele estava. Contudo, este não era o lugar nem o momento certo para dizer esse tipo de coisa para a já confusa Kaori.

(Kaori): “O que você quer dizer com ‘Já é tarde demais’? Nagumo-kun ainda não está morto! Eu tenho que ir, ele com certeza está procurando por ajuda!”

Ele caiu do precipício para o abismo sem fim. Não importava quem olhasse para a situação, já era tarde demais para Nagumo Hajime. Entretanto, a Kaori de agora não tinha a compostura para aceitar esta realidade. Se eles falassem demais, ela iria apenas responder e então iria se esforçar ainda mais. Ryutaro e os estudantes também não sabiam o que fazer enquanto só ficavam de pé parados ao redor, incapazes de falar.

Nesse momento, o Comandante Meld caminhou e, sem dizer nada, golpeou a nuca de Kaori. Ela tremeu por um momento antes de perder a consciência. Kouki segurou a desacordada Kaori e encarou o Comandante Meld. Antes que ele fosse capaz de reclamar, Shizuku aproveitou o momento e se curvou para o comandante.

(Shizuku): “Eu sinto muito. E muito obrigada”

(Meld): “Por favor, pare… guarde a sua gratidão para mais tarde. Nós não podemos permitir que outra pessoa morra. Nós vamos devotar todas as nossas forças para ter certeza de sairmos desse |Calabouço| em segurança… eu vou deixar ela com você”

(Shizuku): “Você nem precisa pedir”

Vendo o comandante partindo, Kouki, que foi incapaz de dizer qualquer coisa, revelou uma expressão descontente. Shizuku recebeu Kaori e falou com Kouki.

(Shizuku): “Como não poderíamos para-la, o comandante fez isso. Você entendeu, certo? Não temos muito tempo. Antes que o choro dela começasse a afetar os espíritos de todos, ou antes que ela tivesse um colapso mental[1], era necessário para-la… olhe, você precisa abrir o caminho, ao menos até todos sairmos daqui… isto era o que Nagumo-kun iria dizer”

Aceitando as palavras de Shizuku, Kouki concordou.

(Kouki): “Você tem razão, vamos!”

Ver um colega morrer diante de seus olhos deixou uma impressão profunda na mente de todos os estudantes. Todos estavam com expressões vazias enquanto olhavam para onde a ponte costumava estar. Houve até aqueles que disseram “Eu já tive o bastante disso!” e se atiraram no chão. Exatamente como Hajime falou, o grupo precisava de um líder agora. Kouki ergueu sua voz para seus colegas.

(Kouki): “Todos vocês! Agora mesmo, apenas pensem em voltarem com vida. Nós estamos nos retirando!”

Os estudantes se moveram lentamente em resposta a essas palavras. As formações mágicas ainda estavam ativas. O número de Soldados Esqueletos continuava a crescer. Seria inútil continuar lutando nesse estado mental atual. Também era desnecessário. Kouki gritou com toda a sua força e incentivou seus colegas a escaparem. O Comandante Meld e os ⌈Cavaleiros também tentaram encorajar os estudantes.

Eventualmente, todos escaparam pelas escadas.

As escadas para o andar superior eram longas. Era tão escuro que eles não podiam ver nada enquanto continuavam a subir. Eles sentiram que já tinham subido mais do que trinta andares. Mesmo seus corpos fortalecidos pela magia começaram a se sentir pesados. Graças aos ferimentos da batalha anterior, a longa e sombria escadaria apenas fazia os estudantes ficarem mais abatidos. Assim que o Comandante Meld estava considerando fazer um pequeno intervalo, uma enorme parede que estava com um círculo mágico gravado finalmente apareceu na frente deles.

Os estudantes começaram a recuperar suas energias. Comandante Meld e os ⌈Cavaleiros rapidamente se aproximaram da parede e começaram a investiga-la. Eles não se esqueceram de usar a [Mira Clara]. De sua investigação, a chance de ser uma armadilha era muito pequena. Parecia que o propósito do círculo mágico era mover a parede diante deles. Comandante Meld começou a entoar um feitiço e colocou |Poder Mágico no círculo mágico. Como resultado, exatamente como uma porta secreta na casa de um ninja, a parede de pedra girou com um som retumbante para revelar um caminho que levava para a sala atrás de onde estavam.

Atrás da porta estava a sala do 20º andar de onde eles originalmente saíram.

(Aluno A): “Nós voltamos?”

(Aluno B): “Nós conseguimos voltar?”

(Aluno C): “Estamos de volta… estamos mesmo de volta…”

Suspiros de alívio escaparam dos estudantes em sequência. Houve alguns que começaram a chorar e outros que estavam se abraçando. Kouki e seu grupo imediatamente sentaram no chão depois de passar pela parede. Contudo, eles ainda estavam no |Calabouço|. Mesmo que elas fossem de baixo nível, eles não sabiam onde as Feras Mágicas iriam aparecer. Eles precisavam escapar do |Calabouço| antes que eles fossem completamente tomados pela tensão.

Suprimindo seu desejo de querer deixar todos descansarem, Comandante Meld endureceu seu coração e fez os estudantes se levantarem.

(Meld): “Todos vocês! Não fiquem sentados aí! Vocês não serão capazes de voltar se começarem a relaxar aqui! Tentem evitar o combate com as Feras Mágicas o máximo possível. Nós temos que escapar o quanto antes daqui. Apenas aguentem mais um pouco!”

Os protestos dos alunos querendo descansar um pouco foram silenciados por um olhar do Comandante Meld. Os estudantes se levantaram com dificuldade. Kouki enfrentou sua fadiga e assumiu a liderança. Cercados pelos ⌈Cavaleiros, eles lutaram o mínimo possível enquanto eles faziam seu caminho de volta para a entrada.

Finalmente, eles chegaram no primeiro andar e viram a recepcionista. Eles obviamente não passaram nem mesmo um dia no |Calabouço|, mesmo assim, muitos deles sentiam como se tivessem passado muito mais tempo lá dentro.

Desta vez, os estudantes revelaram genuínas expressões de alívio. Houve até estudantes que se esticaram no chão em frente à praça, eufóricos por ainda estarem vivos. Contudo, um grupo de estudantes (Shizuku, que ainda estava carregando a inconsciente Kaori, Kouki, Ryutaro, Eri, Suzu e a garota que Hajime salvou) tinha olhares sombrios em seus rostos.

O Comandante Meld fez seu relatório na recepção enquanto continuava a olhar para o grupo de alunos. A nova armadilha que eles descobriram no 20º andar era perigosa demais. Apesar da ponte de pedra ter desmoronado, eles não sabiam se a armadilha continuava ativa, assim, havia a necessidade de relatar isso.

Além disso, a morte de Hajime também precisava ser reportada. Comandante Meld estava tendo muita dificuldade em impedir que sua tristeza aparecesse. Mas mesmo assim, ele não poderia fazer nada além de suspirar.


Depois do grupo voltar para |Holward|, eles voltaram para seus quartos deprimidos. Havia poucos estudantes que estavam discutindo, mas a maioria deles já tinha caído em sono profundo.

E assim, lá estava Hiyama Daisuke. Ele deixou a estalagem sozinho e estava sentado em um local discreto da cidade, abraçando seus joelhos. Seu rosto estava enterrado no meio de suas pernas, sem se mover. Se seus colegas o vissem assim, eles pensariam que ele estava deprimido. Mas na verdade…

(Hiyama): “He, hehehe. Fo-foi culpa dele! Para uma mosca… el-ele se empolgou demais… fo-foi punição divina. Não foi minha culpa… foi pelo bem de Shirasaki… aquela mosca… não é mais um problema… eu não estou errado… hehehe”

Com sua risada sombria e seus olhos nebulosos, ele tentou se justificar.

A bola de fogo que desviou sua trajetória e atingiu Hajime foi de fato lançada por Hiyama. Quando ele estava pensando se devia escapar pelas escadas ou resgatar Hajime, a lembrança de Hajime e Kaori se encontrando pela noite surgiu em sua mente. Hiyama ouviu um diabo sussurrando em seu ouvido. “Se for agora, ninguém vai nem mesmo notar se você matar eleeee”… nesse momento, ele vendeu sua alma para o diabo.

Com o objetivo de não ser exposto, Hiyama cronometrou muito cuidadosamente e lançou sua bola de fogo que atingiu Hajime. Dentro daquele bombardeio caótico, seria muito difícil determinar quem lançou a magia. Além disso, a aptidão de Hiyama era Vento. Era impossível dizer que era ele sem nenhuma evidência. Hiyama disse isso para si mesmo enquanto revelava um sorriso sombrio.

Justo nesse momento, alguém o chamou em suas costas.

(???): “] Suspira [. Então foi mesmo você. O primeiro estudante que cometeu homicídio em outro mundo… você é bem corajosoooo”

(Hiyama): “Qu-quem?”

Hiyama se virou em pânico. A pessoa que saudou ele era um de seus colegas.

(Hiyama): “Po-por que você está neste lugar?”

(???): “Não se preocupe com os pequenos detalhes. Além disso… Assassino-san? Como você se sente agora? Qual a sensação de matar um rival do amor no meio de toda aquela confusão?”

A pessoa riu um pouco, como se estivesse assistindo uma comédia. Apesar de Hiyama ter agido por conta própria, um de seus colegas morreu. Ainda assim, esta pessoa estava agindo como se nada tivesse acontecido. Até um momento atrás, essa pessoa estava chocada e com uma expressão desolada como o resto dos alunos. Mas agora, isso estava completamente ausente no rosto desta pessoa.

(Hiyama): “Esta é… sua verdadeira natureza?”

O atordoado Hiyama murmurou. Zombaria estava contida na resposta desta pessoa.

(???): “Natureza? Não é nada tão exagerado. Não é comum para as pessoas colocarem máscaras diferentes? Mais importante que isso… o que aconteceria se eu espalhasse isto para todos? Especialmente… se ela escutasse…”

(Hiyama): “!?!?!? Ta-tal coisa… ninguém iria acreditar… também não há…”

(???): “Não há evidência? Em outras palavras, você não acredita que eu possa persuadir eles? Você acha que as palavras de um certo cara desesperado seriam convincentes neste momento?”

Hiyama estava encurralado. Era como se essas palavras estivessem sendo ditas para fazer de idiota o já enfraquecido roedor. Ninguém iria esperar que um de seus colegas fosse esse tipo de pessoa. Seria mais fácil de acreditar se dissessem que esta pessoa tinha múltiplas personalidades[2]. A pessoa olhou Daisuke de cima com uma expressão sádica que fez arrepios percorrerem seu corpo.

(Hiyama): “O que você quer?”

(???): “Oh? Isso foi inesperado. Parece que eu estou te ameaçando, não parece? Fufu. Não é como se eu quisesse algo de você agora. Por enquanto, tudo que você precisa fazer é me obedecer e virar meu subordinado”

(Hiyama): “Is-isso é…”

Isso era essencialmente o mesmo que uma declaração de escravidão. Como esperado, Hiyama hesitou. É claro que ele queria recusar, mas se ele fizesse isso, então esta pessoa iria espalhar o rumor sobre seus feitos sem nenhuma piedade. Hiyama, que não sabia o que fazer, começou a ter certos pensamentos tenebrosos… “Eu também poderia me livrar…”. Contudo, esta pessoa já tinha antecipado que isto poderia acontecer e decidiu tenta-lo.

(???): “Você não deseja Shirasaki Kaori?”

(Hiyama): “!?!?!? O qu-que você disse?”

Os pensamentos obscuros de Hiyama foram mandados para longe no mesmo instante. Ele encarou a pessoa com os olhos bem abertos. A pessoa sorriu para a figura atordoada de Hiyama e continuou a tenta-lo.

(???): “Se você me seguir… eu garanto que ela será sua. Eu estava planejando fazer esta oferta para Nagumo-kun, mas… você matou ele. Está tudo bem. Você deve ser muito mais adequado para o que eu estou planejando. Já que não houve qualquer dano, por que apenas não esquecemos sobre isso?”

(Hiyama): “… qual o seu objetivo? O que você espera conseguir!?”

Encarando uma situação tão desconcertante, Hiyama falou com uma voz apavorada.

(???): “Fufu. Isso não te diz respeito. Bem, vamos apenas dizer que eu estou querendo algo… então? Qual a sua resposta?”

Hiyama se sentiu irritado com a forma que essa pessoa estava o subestimando como se ele fosse um idiota. Além disso, essa pessoa facilmente mudou sua personalidade e Hiyama sentiu um intenso medo ao ver esta transformação. De qualquer forma, ele não tinha muita escolha, então, com um olhar derrotado, ele concordou.

(Hiyama): “… eu vou obedecer”

(???): “Ahahahahahaha. Maravilhoso! Eu não quero acusar um colega afinal! Bom, vamos nos dar bem, não é Assassino-san? Hahahahahaha”

A pessoa voltou para a estalagem enquanto ainda ria feliz. Hiyama observou essa pessoa enquanto ele fracamente murmurou “Droga”

Hiyama queria esquecer isso, mas, independentemente do quanto ele negasse, essa cena nunca seria esquecida. A expressão de Kaori quando Hajime caiu no abismo. Era impossível encontrar palavras que descrevessem os sentimentos dela no momento…

Agora mesmo, todos os estudantes estavam exaustos e dormiam profundamente. Depois que eles se acalmassem e entendessem a realidade da morte de Hajime, eles facilmente poderiam perceber os sentimentos de Kaori. Kaori nunca tomou conta de Hajime simplesmente por bondade. Além disso, só por olhar para o rosto abatido de Kaori, eles inconscientemente descobririam a causa. O ato imprudente de Hiyama o colocou em uma situação perigosa.

Com o objetivo de assegurar seu lugar, ele deveria agir com atenção. Hiyama já tinha cruzado essa linha. Era impossível para ele parar agora. Se ele seguisse as ordens dessa pessoa, a possibilidade que ele imaginou se tornou impossível… mas ainda seria possível fazer Kaori ser dele.

(Hiyama): “Heh-heh. Tu-tudo vai ficar bem. Tudo vai ficar bem. Eu não fiz nada errado…”

Enterrando seu rosto entre seus joelhos de novo, Hiyama murmurou sozinho. Desta vez, não havia ninguém para incomoda-lo.


[1] Um colapso mental (também conhecido como colapso nervoso) é um termo não-médico usado para descrever um súbito e agudo ataque de uma doença mental, como depressão ou ansiedade.

[2] O transtorno dissociativo de identidade (TDI), originalmente denominado transtorno de múltiplas personalidades, conhecido popularmente como dupla personalidade, é uma condição mental em que um único indivíduo demonstra características de duas ou mais personalidades ou identidades distintas, cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio. O pressuposto é que ao menos duas personalidades podem rotineiramente tomar o controle do comportamento do indivíduo.