O lado dos colegas de classe 3 (Parte 01): O |Império| e os Heróis

Voltaremos um pouco no tempo…

Enquanto Hajime derrotava a Hidra em um combate mortal, o grupo dos heróis temporariamente interrompia sua conquista ao |Calabouço| e voltava para o |Reino Haihiri|.

A velocidade na conquista do |Calabouço| caiu devido à falta de informações que eles tinham sobre os andares até agora e também devido a força e inteligência das Feras Demoníacas. Assim, fadiga intensa dos envolvidos foi o resultado… a conclusão foi dar um tempo e descansar.

Mas apesar da cidade de |Holward| ser um bom local para se recuperarem, alguém foi enviado para encontra-los: eles precisavam voltar para o palácio. Um representante do |Império Hoelscher| apareceu querendo conhecer os heróis.

Porque o momento escolhido foi esse?

Naturalmente, pouquíssimo tempo passou entre a chegada do oráculo do Deus Eht e a invocação de Kouki e seus colegas. Por este motivo, o |Império Hoelscher| (que era um aliado e não conduziu a invocação do ⌈Herói) não foi capaz de conhecer os heróis logo após a invocação deles.

Entretanto, pensou-se que o |Império Hoelscher| não se moveria mesmo depois de saber da invocação dos heróis. Isto se devia ao fato do |Hoelscher| ter sido fundado há 300 anos por mercenários famosos, se tornando uma “Terra Sagrada” para aventureiros e por vender suas espadas através de seu sistema meritocrático[1].

Para eles, as conversas sobre um grupo de heróis subitamente aparecendo e liderando a humanidade era pouco convincente. A Igreja também estava em |Hoelscher| e como tal, o local não era uma exceção e tinha seus fiéis, mas eles eram menos devotos do que os de |Haihiri|. A maioria de seu povo era ou mercenários ou estavam envolvidos em negócios. Portanto, eles valorizavam mais o lucro do que a fé. De qualquer forma, isto era apenas uma história; seria muito difícil ganhar dinheiro de seus fiéis.

Baseado nisso, era possível que eles não tenham visto utilidade em se encontrarem com Kouki e o resto de seu grupo depois da invocação deles. É claro que eles eram contra desrespeitar abertamente Deus na frente da Igreja. Enquanto |Haihiri| ficaria feliz em organizar tal encontro, |Hoelscher| (particularmente Sua Majestade Imperial) não estava interessado e, portanto, não se envolveram.

Contudo, o fato da incursão no |Calabouço Orcus| ter sucesso em superar o 65º andar, batendo o recorde anterior, despertou o interesse de |Hoelscher|. Assim, eles enviaram uma mensagem dizendo que queriam conhecer os heróis e tanto a Igreja quanto |Haihiri| rapidamente concordaram.

Depois que estas notícias foram cuidadosamente reportadas para Kouki e companhia na carruagem, eles chegaram no palácio.

A carruagem entrou no palácio e assim que eles desceram, eles viram a figura de um garoto indo em direção a eles. Ele tinha uns dez anos e cabelos louros e olhos azuis. A atmosfera ao redor dele era parecida com a de Kouki, mas com muito mais malícia nela. Este era Randell S. B. Haihiri, Príncipe do |Reino|. O ar ao redor dele poderia ser comparado com o de um cão com orelhas caídas e a cauda balançando enquanto ele corria até eles e gritava em voz alta…

(Randell): “Kaori! Você voltou! Eu estive esperando!”

É claro que Kaori não era a única lá, pois a expedição que voltou estava presente com sua força total. Para eles, era fácil imaginar quais eram os sentimentos de Randell apenas por olhar sua atitude… tirando Kaori, ele não via mais ninguém.

De fato, o Príncipe Randell esteve fazendo investidas agressivas em Kaori desde o dia seguinte a invocação deles. Dito isso, ele tinha apenas dez anos. Na visão dela, ele só poderia ser reconhecido como uma criança emocionalmente apegada e não havia sinais dos sentimentos dela amadurecendo além disso. Para uma pessoa naturalmente gentil como Kaori, ele seria algo como um irmãozinho fofo.

(Kaori): “Já faz algum tempo, Sua Alteza”

A cauda imaginária balançou furiosamente para cima e para baixo ao ver o pequeno sorriso dela, enquanto Randell instantaneamente ficava vermelho. Apesar disso, ele conseguiu fazer uma expressão masculina antes de fazer outra “investida” em Kaori.

(Randell): “Ah. Faz muito tempo mesmo. Quando você disse que ia para o |Calabouço|, eu senti como se estivesse morrendo. Você está ferida? Se eu fosse mais forte, eu nunca deixaria você fazer algo assim…”

Randell mordeu seus lábios aborrecido. Mesmo que Kaori tenha recusado ser apenas protegida, os sentimentos acolhedores do garoto ainda fizeram o rosto dela relaxar.

(Kaori): “Obrigado pela sua preocupação. Mas eu estou bem, sabia? Eu quero fazer isto”

(Randell): “Não, Kaori não é adequada para lutar. De-deve ter, você sabe, coisas mais seguradas para você fazer”

(Kaori): “Coisas mais seguras?”

Kaori inclinou sua cabeça ao ouvir as palavras dele e com isto, ele ficou com um tom ainda mais escuro de vermelho. Observando esta conversa divertida de lado, Shizuku apenas sorriu ironicamente enquanto ela observava a valente “investida” do jovem homem.

(Randell): “Mmhmm. Por exemplo, que tal você virar uma camareira? Você pode trabalhar exclusivamente para mim, começando hoje”

(Kaori): “Como uma camareira? Eu sinto muito, mas eu sou uma Curandeira…”

(Randell): “En-então, ir para o Instituto Médico seria bom também. Não há necessidade de ir para lugares perigosos como |Calabouços| ou a linha de frente, não é?”

O Instituto era um hospital estatal situado logo ao lado do palácio real. Resumindo, Randell odiava ser separado de Kaori. Entretanto, os sentimentos do jovem garoto não venceriam a tenacidade de Kaori.

(Kaori): “Não, eu não serei capaz de cura-los imediatamente se eu não estiver na linha de frente. Obrigado por se preocupar comigo”

(Randell): “Uu…”

Randell grunhiu suavemente percebendo que ele não poderia vencer a determinação de Kaori.

(Kouki): “Sua Alteza, Kaori é minha preciosa amiga de infância. Contanto que eu esteja por perto, eu definitivamente continuarei a proteger ela!”

Do ponto de vista de Kouki, ele estava sendo 100% eficiente em confortar um jovem garoto, mas essas não eram as palavras corretas para esse momento. Aos olhos do apaixonado Randell, isto foi traduzido como:

“Eu não vou deixar minha mulher me abandonar. Eu definitivamente não entregarei Kaori para ninguém!”

O Herói e a Curandeira se aconchegando intimamente… era uma imagem dessas que estava na mente de Randell. A expressão dele se transformou pela arrogância e Randell enviou um olhar de “você é meu inimigo mortal” para Kouki. Para o príncipe, eles pareciam ser namorados.

(Randell): “O que você está dizendo? Você não pensa em nada ao mandar Kaori para lugares perigosos. Eu não vou perder para você! Kaori ficar comigo é a melhor decisão”

(Kaori): “Umm. Bem…”

Para as palavras hostis que Randell falou, Kaori ficou confusa e apenas sorriu sem graça, enquanto Kouki ficou sem fala. Shizuku, vendo Kouki assim, só podia suspirar.

Antes que Kouki pudesse dizer mais alguma coisa para agravar o mau humor do príncipe que rosnava, uma voz calma, mas autoritária, foi ouvida.

(???): “Randell. Comporte-se. Você não pode ver que Kaori está abalada?”

(Randell): “Ir-irmãzona! Ma-mas…”

(Princesa): “Sem mas. Mesmo todos eles estando cansados… detê-los neste lugar… quem é que não está pensando nos outros?”

(Randell): “Ugh… ma-mas…”

(Princesa): “Randell?”

(Randell): “Ta… tarefa! Eu me lembrei… eu tenho uma tarefa para realizar! Com licença!”

Recusando admitir seu erro, Randell girou nos calcanhares e fugiu. Vendo as costas dele desaparecendo de vista, a Princesa Liliana falou com um suspiro.

(Liliana): “Kaori, Kouki-san, eu sinto muito pelo meu irmão. Minhas desculpas pelo comportamento dele”

Liliana curvou sua cabeça enquanto dizia isso, fazendo seus lindos e lisos cabelos louros fluírem para baixo.

(Kaori): “Mm. Não se preocupe com isso, Lili. O Príncipe Randell só estava preocupado”

(Kouki): “Eu concordo. Mesmo assim, eu não entendi o porquê ele ficar zangado… eu não disse nada rude para ter que me desculpar”

Kaori e Kouki falaram isso enquanto Liliana sorria levemente. Entendendo bem o amor entre uma irmã mais velha e seu irmão mais novo, Kaori simpatizou com Liliana por ter um irmão completamente ignorante sobre os sentimentos dela. Acima disso, era importante que o “inimigo mortal” soubesse que ela não fazia parte deste assunto.

A propósito, os encontros entre Randell e seu “inimigo mortal” iriam causar um grande alvoroço… mas essa é outra história.

Liliana era uma dama talentosa de quatorze anos. Cabelos dourados e olhos azuis, ela era linda e popular com o povo. Séria, mas não obstinada demais, ela era boa em ler o humor. Ela era até capaz de interagir abertamente com os servos.

Ela, como uma princesa e como uma pessoa, estava muito agitada sobre o estado de Kouki e dos outros alunos invocados. Isto se devia a uma sensação de culpa sobre arrastar eles nos problemas do mundo dela, o que deveria ser um assunto das pessoas de |Tortus|.

Por esse motivo, ela tomou a iniciativa para conhecer os estudantes e levou pouco tempo até que eles se tornassem bons amigos. Ela se dava especialmente bem com Shizuku e Kaori, que tinham uma idade próxima da dela. Nesse ponto, elas já tinham parado de usar todos os honoríficos, preferindo falar casualmente entre si e até dando apelidos umas às outras.

(Liliana): “Não, Kouki-san. Não há necessidade de se preocupar com Randell. Ele apenas tende a ser um pouco irresponsável. Mais importante que isso… mais uma vez, bem-vindos de volta, todos vocês. Eu estou sinceramente feliz que todos vocês voltaram em segurança”

Dizendo isto, Liliana sorriu gentilmente. Mesmo estudantes que estavam perto de beldades como Kaori e Shizuku coraram quando viram o sorriso dela. Havia uma elegância refinada de realeza nela que as duas não tinham, algo que a maioria das mulheres jovens não poderia competir usando apenas a beleza.

Na verdade, o grupo de Nagayama e o grupo dos delinquentes também estavam vermelhos ao terem seus corações roubados; até algumas alunas estavam com as bochechas ligeiramente vermelhas. Para estudantes comuns da era moderna, a aura de uma autêntica Princesa de Outro Mundo era demais. Aqueles que podiam lidar com isso, como Kaori e os que já eram próximos da princesa, estavam indiferentes a esse efeito.

(Kouki): “Obrigado, Lili. Seu sorriso me livrou de minha fadiga. Eu também estou feliz ao ver você”

Kouki disse tais frases com um sorriso agradável. Apesar de isso se repetir com frequência, Kouki não tinha nenhuma segunda intenção ao dizer isso. Ele realmente estava feliz por estar vivo e encontrar uma amiga de novo… ele só era patologicamente ignorante sobre os efeitos que suas palavras e ações tinham.

(Liliana): “Ver-verd-verdade? U,um…”

Como uma princesa, Liliana estava acostumada com elogios e bajulações dos aristocratas, enviados do |Império| e as pessoas das cidades e vilarejos. Dessa forma, ela se treinou e se acostumou a enxergar além dessas máscaras e discernir a verdadeira intenção deles. Assim, ela pôde ver que não havia nenhuma intenção ruim nas palavras de Kouki. Não acostumada com esse tipo de experiência fora de sua família, as bochechas de Liliana ficaram vermelhas e ela ficou abalada e incapaz de responder.

Kouki, como sempre, só continuou a rir e sorrir, sem perceber os efeitos de seu comportamento. E como esperado, isto fez Shizuku suspirar profundamente. Uma pessoa preocupante subiu ao palco, mesmo assim, a pessoa em questão falhou miseravelmente em notar isso.

(Liliana): “Um. De qualquer forma, obrigado por todo o seu trabalho duro. As preparações para a refeição e os banhos já estão completas, então por favor, sintam-se em casa. Os representantes imperiais vão levar alguns dias para chegar, então vocês não precisam se preocupar com isso”

Recuperando sua compostura, Liliana os incentivou dessa forma.

Enquanto Kouki e os outros estavam aliviando a fadiga acumulada no |Calabouço|, os grupos que ficaram para trás escutaram sobre a derrota do Behemoth e gritos de alegria surgiram entre eles. Depois disto, o número de pessoas que voltou para a linha de frente aumentou. O título de Deusa da Fertilidade de Aiko-sensei também se tornou um assunto importante neste ponto, o que a fez se retorcer bastante.

Kouki e os outros lentamente descansaram seus corpos que foram exaustados pela incursão.

Mas em seu interior, Kaori estava agitada; ela queria voltar para o |Calabouço|.


[1] Meritocracia é um sistema ou modelo de hierarquização e premiação baseado nos méritos pessoais de cada indivíduo.