O garoto odiado

Em outra manhã, Rudel saiu para correr de novo. Completando dez anos, Rudel aprendeu a controlar a |Mana através de seu corpo para correr em uma velocidade alucinante. Se ele corresse no jardim, seus pais e os servos iriam reclamar, então agora ele saía do castelo e corria ao longo do muro externo da cidade… para ser mais preciso, ele corria perpendicularmente ao muro. Tão grande era a velocidade que ele atingia.

Ele costumava correr até o momento em que seu estômago começava a roncar e, acreditando no relógio de seu estômago, ele voltava para o castelo só para encontrar o café da manhã recém posto na mesa. Em um quarto solitário, ele tinha seu café da manhã… a vida diária de Rudel não mudou em cinco anos.

Ele preservava suas boas maneiras enquanto comia, e sem falha…

(Rudel): “Obrigado pela refeição!”

… ele dizia suas preces. Vendo ele desse jeito, os servos achavam Rudel um esquisitão. Por falar sozinho em um quarto vazio… mesmo depois de cinco anos, o tratamento de Rudel não mudou.

Mas mesmo assim, Rudel não estava triste. Para Rudel, que sonhava apenas em ser um Dragoon o quanto antes possível, não havia tempo para se preocupar com essas bobagens… e ele nem sabia o que era gentileza para começo de conversa! A única vez em que ele estudou sobre isso foi no reino dos livros.

Ultimamente, ele fazia cada vez menos perguntas para seu tutor. Seu tutor concluiu que ele só tinha desistido de estudar. Mas Rudel apenas viu através das habilidades que seu tutor possuía. Ficou cada vez mais evidente que ele não conseguiria nenhuma resposta mesmo se ele perguntasse, assim ele decidiu estudar por conta própria.

Ele fez vários pedidos a seus pais para conseguir um novo tutor, mas eles não o levaram a sério. O motivo: esse tutor era muito elogiado por seu irmão mais novo, Chlust. Eles até passaram a gosta do tutor que dizia que Chlust teria um grande futuro pela frente…

Mas até Rudel tinha alguém que podia respeitar. Seu instrutor de esgrima ex-mercenário. Ele não tinha nenhuma relação com o jovem Chlust. Chlust era ensinado por outro famoso mestre espadachim.

Treinamentos de artes marciais e técnicas de espada para combates de curto alcance moldaram o corpo de Rudel. Foi devido ao fato de poder experimentar isso em primeira mão que Rudel respeitava o soldado… mesmo que ele ainda fosse ridicularizado de vez em quando…

E um dia, uma reviravolta aconteceu em sua vida. O nascimento de uma irmã mais nova. Suas “duas irmãs” que iriam completar três anos de idade não eram gêmeas. O pai de Rudel andou plantando sua semente em outros lugares…

A primeira era Erselica, nascida da mesma mãe que ele; a outra era Lena. As duas recebiam tratamentos totalmente opostos. Erselica era sempre mimada. Enquanto isso, Lena só recebia o mínimo necessário de interação.

Em |Courtois|, onde cabelo louro era o mais comum, Lena era uma garota que possuía uma rara combinação de cabelos e olhos pretos. Ela ficava trancada em seu quarto com muita frequência. Ainda assim, entre Lena e Rudel, uma estranha repetição de encontros iria acontecer. O quarto de Rudel ficava no segundo andar, enquanto o de Lena ficava logo abaixo do seu.

Como Rudel começava a se mover todos os dias junto com o nascer do Sol, sair pela porta da frente logo se tornou um incômodo… ele passou a sair do quarto pulando a janela. A primeira vez que Lena o viu fazendo isso, ela o achou uma pessoa muito suspeita. E a partir desse dia, ela passou a acordar nesse horário para observar esse indivíduo suspeito.

Acordando ao nascer do Sol, saindo e voltando todos os dias no mesmo horário. Foi um tempo depois que ela descobriu que esse era seu irmão nascido de outra mãe.

Nessa época, a impressão de Lena sobre Rudel foi…

(Lena): “Legal…”

A jovem garota era do tipo estranha. Lena tinha uma natureza parecida com a de Rudel. Era o tipo de pessoa que agia sem pensar; uma garota que comia direito e dormia bastante… e Lena desenvolveu um interesse por Rudel. Ela iria segui-lo por aí todos os dias para vigiar suas costas.

Talvez, por causa disso, o nome de Lena logo estava entre as fofocas da mansão como a “Sombra Persistente”. O estranho Rudel acompanhado de sua estranha irmã mais nova, isso continuou apesar do desdém dos servos.


(Rudel): “… o que você está fazendo aí?”

(Lena): “Hah!?”

Um dia, tendo terminado seu treino com espada, Rudel decidiu se dirigir a Lena antes de voltar para seu quarto. Ele já tinha percebido ela há algum tempo e ignorava isso de propósito. Mas como isso continuava dia após dia, ele começou a ficar sem paciência…

Quando ele se virou, ele viu uma garota que nunca tinha visto antes… essa foi a impressão de Rudel. Como Rudel era fundamentalmente desinteressado nas relações humanas da mansão, ele nem sabia da existência de suas irmãs.

(Lena): “Y-yo!”

Lena o deu algo parecido com um cumprimento e começou a encarara-lo curiosamente. Rudel estava encrencado. Ele nunca esperou por um cumprimento como esse. E ele acabou ficando interessado.

(Rudel): “… yo?”

Desse dia em diante, Lena corajosamente se aproximou de Rudel. Rudel tinha algum interesse na garota que o perseguia tão incansavelmente e aprovou isso.

E eles foram juntos para tomar o café da manhã.

(Lena): “Bwo! Isso é amargo…”

Quando ela mordeu um vegetal, Lena reclamou com Rudel. Rudel comeu isso por cinco anos, então ele não se importava. Mas, falando de modo geral, as refeições de Rudel tinham um gosto horrível.

(Rudel): “Está cheio de nutrientes, então você precisa comer tudo… mastigue bem… não, você não pode só engolir, você precisa mastigar!”

Com a amargura abrindo um buraco em seu estômago, Lena engolia antes de sentir o sabor da comida. Isso era uma surpresa para Rudel… “tal método existe!“, pensou ele… parece que Rudel e Lena eram mesmo dois idiotas.

E ele ajudou ela com seu estudos também. O tutor particular não era nada mais do que uma existência que meramente existia e, mesmo se Lena estivesse no quarto, ele não diria nada.

(Lena): “Um, dois, três… um monte”

(Rudel): “… quatro”

Quem sabe Rudel pensasse nela como um incômodo no início. Mas ele percebeu o quão importante era a existência de Lena para ele, quando ela pegou um resfriado. Quando aquela que sempre o seguia por aí não estava por perto, ele não pôde fazer nada além de se preocupar.

E vendo ela o seguindo no dia seguinte… Rudel se sentiu aliviado. Percebendo isso, Rudel perguntou…

(Rudel): “Você estava sozinha?”

(Lena): “Por quê?”

(Rudel): “Por nada. Agora não seja teimosa, você precisa mastigar e comer direito… como eu já te disse, não engula sem mastigar!”

Pelo fato de ele poder ter uma conversa no café da manhã, Rudel fez seu primeiro agradecimento com sinceridade na vida.


Em outro dia, Chlust e uma garota que ele não conhecia vieram andando pelo corredor da direção oposta.

Rudel e Lena tinham negócios a resolver, então é claro que eles seguiram em frente. Mas Chlust e aquela garota também andaram bem no meio da passagem.

Rudel era o filho mais velho. Então quando ele andava pelo corredor, ele raramente cedia a passagem. Ele andou até Chlust… atrás de Chlust, alguns servos seguraram a respiração enquanto observavam a situação.

(Chlust): “Irmão, você poderia me deixar passar?”

(Rudel): “Chlust, eu sou seu irmão mais velho e eu acho que minha posição é mais alta do que a sua”

Irmãos separados por apenas um ano, mas as pessoas ao redor achavam Rudel um idiota, enquanto Chlust era considerado um prodígio.

(Servo): “Rudel-sama, Chlust-sama está com pressa, então, se você não conceder a passagem…”

Um dos servos disse isso, mas Rudel não se moveu. Sem expressão, ele se manteve no lugar e esperou pelo outro grupo para ceder espaço. O único irritado com tudo isso era Chlust. Chlust sempre escutava isso pela casa…

[ “Se Rudel não estivesse aqui… aquele que se tornaria o herdeiro seria Chlust” ]

… assim, ele tinha uma excessiva antipatia pelas atitudes de Rudel. Conceder a passagem para Rudel era inaceitável! E diante dele, sua irmãzinha fofa, Erselica, pegou a mão de Chlust enquanto encarava Rudel, o irmão com quem ela não se envolvia.

Os servos no local sabiam que isso não seria bom. Assim, pensando que seria apenas um atalho, eles guiaram Chlust por um caminho diferente. Chlust virou suas costas para Rudel conforme caminhava para longe…

Olhando para seu irmão, Erselica disse…

(Erselica): “Você só precisa ficar longe dele…”

Irmãos de sangue com uma grande muralha entre eles… Rudel e Chlust ainda teriam muitas rixas diferentes depois desse dia.