O garoto suspeito

Depois dessa confusão nos portões da academia, Rudel descarregou suas bagagens e carregou seus pertences para o dormitório masculino que ele usaria. Seus poucos pertences foram levados ao quarto em poucas viagens, e depois dos servos lhe darem algumas palavras vagas de despedida, eles partiram imediatamente.

(Rudel): “Não é um quarto tão ruim… mas estou sentindo que é um quarto um pouco grande demais para um única pessoa”

Tirando suas roupas de nobre cheias de ornamentos, ele trocou para um conjunto mais fácil para se mover enquanto consultava sua agenda. Depois da cerimônia de entrada de amanhã, um encontro para tirar dúvidas e uma festa de boas-vindas o aguardavam. Aos 15 anos, os estudantes deveriam escolher entre um curso de dois, três ou cinco anos… ele tinha certeza que havia muitos mais talentosos do que ele e ele estava competindo com eles para se tornar um Cavaleiro.

Enquanto ele pensava sobre isso, Rudel começou a andar pelo quarto que acabara de arrumar. “Com toda essa tensão e ansiedade, se eu não me mexer”… ele pensou.

Mas mesmo quando ele fez isso, ele não podia se acalmar. Mesmo tendo entrado na academia, ele sentiu uma inquietação e um nervosismo que nunca sentiu antes. Ele sentiu algo parecido com uma obsessão o forçando a sair deste quarto.

(Rudel): “O que é isto? Isto nunca aconteceu antes…”

Ele falou enquanto colocava o suficiente de roupas apenas para não se sentir envergonhado por andar lá fora. Mesmo se ele andasse pela academia (a área ao redor do dormitório masculino para ser mais preciso)… “este não é o lugar”… um estranho sentimento ressoou em sua cabeça… oh… que seja! Ele deixou seus pés o guiarem para onde eles desejavam.

E o lugar onde seus pés o levaram… era o dormitório feminino!

(Rudel): “Eu sou mesmo tão pervertido? Não! Quero dizer… bem… eu sou um garoto e não é como se eu não tivesse nenhum interesse…”

Rudel estava bem nervoso pelo fato de inconscientemente andar até esse lugar. Algumas guardas se aproximaram dele cautelosamente.

(Guarda): “O que você está fazendo aqui? Esse é o dormitório feminino e é proibido para qualquer homem entrar”

Foi uma explicação cortês, mas o dormitório feminino era ocupado por alguns estudantes da alta sociedade. Essas guardas seriam as primeiras a lidar com os problemas que pudessem aparecer… os garotos não eram nada além de problema.

Por isso, educadas como eram, havia força nas mãos que seguravam as espadas em suas cinturas.

(Rudel): “M-Minhas desculpas. Eu apenas me perdi… vocês poderiam me indicar a direção do dormitório masculino?”

(Guarda): “… eu vou leva-lo até lá. Mas não pense que essa desculpa vai te salvar uma segunda vez”

O grupo irritado enviou uma representante com Rudel para manda-lo para seu lugar.

(Guarda): “Será problemático se vocês nobres não se controlarem! Escute aqui, um equívoco desse tipo poderá causar uma turbulência entre as casas…”

A guarda andou na frente enquanto repreendia e explicava com uma voz cansada. Esses problemas da academia que eram varridos para debaixo do tapete eram a causa de muita dor de cabeça para os guardas e soldados.

“Parece que você tem muitos problemas para lidar”… foi o que Rudel pensou. Ele não estava com intenções indecentes para começo de conversa… e esse era um lugar que ele pensava em não aproximar novamente. Rudel ocasionalmente se desculpou com a guarda enquanto ela falava e o guiava para o dormitório masculino.

(Guarda): “Ah! Pode me mostrar sua identificação de estudante? São regras, para possíveis questionamentos futuros, então eu preciso confirmar sua identidade…”

De nobres para alunos regulares. A academia abrigava inúmeros estudantes. Carregar sua identificação era uma obrigação para todos os estudantes. Era uma medida para ter certeza que nenhum estranho iria se infiltrar, mas controlar os estudantes era o objetivo principal. A identificação do estudante guardava o número de prisões domiciliares até o momento… e outros tipos de problemas que o aluno em questão causou.

(Rudel): “Aqui vamos nós”

Desejando uma vida sem crimes, Rudel carregava sua identificação como indicado pelo regulamento escolar que ele tinha consultado antes. Quando ele o mostrou…

(Guarda): “… Rudel Arses? Arquiduque Arses-sama!!! M-Minhas mais sinceras desculpas!!! Eu fui longe demais! Você tinha algum tipo de negócio no dormitório feminino, não é? Eu vou leva-lo de volta agora mesmo…”

(Rudel): “N-Não… eu realmente só estava perdido!”

(Guarda): “Sim! Ne-Nesse caso, eu devo chamar por ‘alguém que possa apresenta-lo para esse tipo de mulheres’… então por favor, se possível… por favor, não com as alunas… minhas desculpas! Eu estou sendo rude, não estou?”

Rudel olhou para a guarda desesperada com bastante piedade. E ao mesmo tempo… ele entendeu a forma como ele foi visto… ele realmente parecia assim tão “faminto”? Com isso em sua cabeça, ele ficou terrivelmente depressivo.


Tentando esclarecer o mal-entendido, Rudel voltou para seu quarto e relaxou. Talvez interagir com tantas pessoas o deixaram esgotado e, mesmo sendo tão cedo, ele decidiu dormir.

Quando a manhã chegou, ele abriu seus olhos com o nascer do Sol como costumava fazer. Depois de ir buscar o uniforme que ele esqueceu de pegar no dia anterior, ele notou que tinha algum tempo livre. Assim, ele decidiu se aventurar no pátio do dormitório masculino.

Mas o cenário não era nem de perto tranquilo. A multidão de homens praticando com suas espadas e duelando; o som da madeira e do metal colidindo por todo o canto. Foi uma vista que encantou Rudel.

[ “Todos estão trabalhando duro. Se eu não der o meu melhor, vou ficar para trás” ]

Assim, Rudel encontrou um espaço vago no pátio e começou a treinar com sua espada. Alguns veteranos o viram e pensaram em dizer algo, mas decidiram deixa-lo em paz enquanto derramavam seu próprio suor.

Depois de algum tempo, o sino tocou seis vezes… escutando isso, os estudantes começaram a se limpar e caminharam para a cafeteria. Rudel hesitou e não sabia se devia segui-los.

(???): “Você é um estudante novo, não é? Mesmo que você esteja animado, você pode pegar leve por enquanto… o lugar fica vazio a esta hora”

(Rudel): “Estava escrito que a cafeteria é bem popular, então é melhor me apressar”

Rudel se lembrou da lista com várias informações que havia lido antes. Em resposta a isso, o rapaz veterano disse…

(Veterano): “Ela fica lotada quando o sino toca sete vezes. Mas as pessoas que estavam aqui são os únicos neste horário”

Dessa forma, ele seguiu seu veterano e entrou na cafeteria da escola. Lá dentro, um grande número de garotos já estava com seus pratos cheios de comida… o que fez seu estômago reclamar.

(Veterano): “Viu. Não está vazio? Eu sou Vargas, estou no terceiro ano”

(Rudel): “Eu sou Rudel. Rudel Arses”

(Vargas): “Um nobre? Eu sou do interior, então não sei como agir com nobres… bem. Que seja. Vamos nos dar bem”

O veterano Vargas tinha seu longo cabelo vermelho amarrado em um rabo de cavalo. Sua pele morena bronzeada e sua constituição sólida lhe davam um ar ameaçador, mas, após conversar com ele, via-se que era um jovem sociável.

(Rudel): “Sim!”

Para Rudel, este foi o momento em que ele conseguiu um amigo que não fazia parte de sua família.


Voltando da cafeteria para seu quarto, Rudel, já em seu uniforme, entrou em uma grande construção orientado pelos professores. Ao invés de um auditório, era praticamente… certo… era um espaço parecido com uma arena. Como duelos aconteciam neste espaço, essa descrição não estava errada, mas…

(???): “Eu estou feliz em ver tantos jovens atravessando nossas portas este an…”

Depois de receber um longo discurso do diretor, os estudantes foram divididos em turmas e enviados para suas salas de aula. Falando de modo geral, a escola só ensina o básico nos primeiros dois anos, e a separação das turmas era só uma forma de separar famílias que não se davam bem, ou para colocar aqueles de nível mais baixo em um único lugar… eram coisas aleatórias.

Porém, Rudel era o filho mais velho da Casa Arses, um dos Três Lordes. Para evitar qualquer falta de cortesia, ele foi enviado para uma turma cheia de jovens nobres. E este ano, além de Rudel, os outros filhos mais velhos dos outros Três Lordes também se matricularam. Portanto, a academia estava cheia de tensão no ar.

(???): “Eu espero que nós possamos nos dar bem nesses próximos dois anos”

O professor da turma deu um breve cumprimento e as introduções da sala… supostamente acabariam bem.

Mas não foi assim. Algo aconteceria… não. Ele faria algo acontecer! Um sentimento estranho tomou conta de Rudel. Preocupado com esse sentimento que ele nunca sentiu antes de ir para a academia, Rudel terminou sua apresentação sem incidentes.

Ainda assim…

(???): “Izumi Shirasagi”

Com a introdução de uma única garota do oriente, o clima da sala se transformou. Cabelos e olhos negros eram raros em |Courtois|, essas características orientais a tornaram o alvo perfeito para as crianças. Zombarias e declarações para ofender a garota podiam ser ouvidas em toda a sala.

Uma sala formada quase toda de nobres. Para uma garota oriental estar nessa sala… era uma desculpa disfarçada de intercâmbio cultural. Na verdade, isso foi feito para que os nobres focassem somente nela e não brigassem entre si.

Os garotos atrás dela puxavam seu longo rabo de cavalo como provocação… na garota sendo hostilizada, Rudel viu sua própria irmã Lena. Mas diferente de Lena, o cabelo dela parecia seda ao toque.

(Rudel): “Por que vocês não param? Vocês percebem o quão vergonhoso isso é?”

Foi preciso apenas uma frase da boca de Rudel para que a classe retornasse ao silêncio. O professor endossou o discurso e preveniu os estudantes que estavam assediando a garota. Para essas crianças que cresceram na nobreza, eles já estavam acostumados a receber ordens. Por ordem de status, não havia ninguém que pudesse se opor a Rudel dos Três Lordes.

E no fim, o professor elogiou Rudel e as pessoas ao redor aprovaram… para Rudel, essa cena parecia terrivelmente distorcida.