O |Labirinto| sem monstros

Haru e eu escalamos a muralha usando a escada feita de cordas em um lugar que não estava coberto pelas teias e descemos o muro para voltar para a cidade.

Então nós corremos até chegar no |Labirinto|.

(Ichinojo): “Haru, como está a situação?”

(Haru): “Exatamente como o mestre deduziu, o cheiro de Carol-san continua dentro do |Labirinto|. A propósito, não há cheiro indicando que ela saiu, então a chance de ela ainda estar lá é alta!”

(Ichinojo): “Guh. Por quê? Ela deveria saber que isso aconteceria se ela entrasse no |Labirinto|

Ela libera um feromônio que atrai monstros à noite ou quando ela entra em um local onde a luz não chega.

O interior do |Labirinto| não é exceção.

Contudo, como exatamente ela entrou no |Labirinto|?

A condição de Carol deveria ser bem famosa nesta cidade. Não posso imaginar que soldados de vigia no |Labirinto| iriam ignorar isso.

(Ichinojo): “Hey… você, a quanto tempo você está de vigia aqui?”

(Guarda): “Quem é você?”

(Ichinojo): “Carol passou por aqui?”

(Guarda): “Aquela pirralha não está no |Labirinto|

O homem fingiu ignorância.

O fato de ele instintivamente pensar que a garota chamada Carol era uma criança (apesar de ela ter 16 anos) é um ponto suspeito.

Além disso, mesmo eu tendo perguntado “Ela passou por aqui?”, o fato de ele ter declarado “Ela não está no |Labirinto| é outro ponto suspeito.

Pensando na habilidade única de Carol, ela não deveria ser aceita dentro do |Labirinto|, então, essa pessoa deve ter assumido que eu estava perguntando se ela entrou pela entrada principal.

Tão suspeito… ou melhor, este cara definitivamente sabia muito bem que Carol é uma Tentadora e quão desastroso seria se ela entrasse no |Labirinto|, mesmo assim ele deixou ela passar. Mas por que ele fez isso?

(Haru): “Deve ser porque ela estava com Oregeru-sama”

(Guarda): “!?!?!?”

Com a dedução de Haru, o guarda ficou pálido. Isso foi com certeza uma confirmação.

Um homem fácil de ler, igual Haru e sua cauda.

(Guarda): “Yeah. É verdade. Foi uma ordem daquele nobre-sama. Eu não quero nem imaginar o que aconteceria se eu recusasse. O nobre-sama disse que iria até o último andar do |Labirinto| em um instante e não haveria nenhum problema, mas eu vi que isso foi um erro quando escutei que uma horda de Lagartas de Lã estavam atacando do Leste. Ele entrou no |Labirinto| com aquele homem que parece um mordomo, Sebastan, e Carol há uma hora”

(Ichinojo): “… entendo”

Foi por volta do horário em que terminamos de trocar nossas medalhas por dinheiro no cassino e aumentar meus pontos de experiência como Plebeu e nós estávamos no meio de nossa refeição. Eles deviam estar terminando suas preparações para entrar no |Labirinto|.

Se é assim, há uma chance de que eles já estejam em um andar bem profundo… não, eles estão com Carol que atrai monstros, então deve ser fácil alcançar eles.

(Ichinojo): “Haru, Oregeru está lá dentro, então é melhor que você fique aqui…”

(Haru): “Não mestre. Você não será capaz de rastrear Carol sem mim”

(Ichinojo): “Está tudo bem se eu não os rastrear. Eu posso os encontrar no terceiro andar. Se eu usar ‖Magia do Vento‖ para controlar a direção do vento na entrada do |Labirinto| quando Carol estiver saindo, os feromônios não deveram escapar, não é?”

(Guarda): “… este |Labirinto| tem múltiplas escadas no interior, então tem uma boa chance de você passar direto por eles”

O soldado protegendo a entrada do |Labirinto| me disse isso.

Me disseram que o |Labirinto para Iniciantes| em |Florence| tinha uma única escada, por isso eu estava certo de que o mesmo aconteceria aqui.

(Haru): “Mestre, eu ficarei bem, então devemos nos apressar”

(Ichinojo): “… muito bem, nós iremos juntos até chegarmos perto de Carol e então eu poderei estimar o paradeiro dela usando os movimentos dos monstros… com sorte, isso irá funcionar”

(Haru): “Sim mestre”

Assim, nós entramos no |Labirinto|.

Dentro do |Labirinto|, as paredes tinham uma cor marrom de terra e o teto brilhava levemente… o |Labirinto| de |Florence| tinha uma aparência parecida, mas o número de bifurcações pelo caminho era muito maior em relação ao |Labirinto para Iniciantes|. Parecia um local onde seria fácil se perder sem Haru por perto.

Contudo, ela avançava sem hesitar… não era a rota mais curta, mas ela com certeza escolheu o caminho que Carol seguiu.

Sem levar nem mesmo cinco minutos, nós encontramos as escadas que levavam para o segundo andar.

Era um |Labirinto| com 25 andares, então, neste lugar, nós provavelmente levaríamos duas horas para alcançar eles.

Havia outra condição para este ritmo ser possível.

(Ichinojo): “Não há nenhum monstro por aqui, huh”

(Haru): “… provavelmente, a habilidade de Carol em atrair todos os monstros na vizinhança permitiu que Sebastan-san derrotasse todos de uma vez”

(Ichinojo): “Oregeru está planejando aumentar seu Level, huh… me pergunto que tipo de emprego é o Nobre

(Haru): “Eu ouvi que é um emprego que te permite mudar para os empregos de mais alto nível como Paladino e Feiticeiro Sagrado. Entretanto, as condições para uma pessoa se tornar um Paladino é ser um Nobre e um Cavaleiro Lv50, e para se tornar um Feiticeiro Sagrado, é preciso ser um Nobre e um Feiticeiro Lv50”

Esse é um requisito bem rigoroso para um emprego. Além disso, parece que Nobres são capazes de mudar para Aprendiz de Espadachim e Aprendiz de Mago logo ao nascer.

É um belo privilégio ser capaz de mudar de emprego sem precisar aumentar seu Level como Plebeu.

Contudo, no meu coração, o maior emprego acima de Nobre não são esses, mas…

(Ichinojo): “É possível mudar para um emprego da Realeza?”

Eu pensei nisso. Era um pensamento inocente, mas Nobres devem ser capazes de aumentar seu Level até chegar na Realeza.

Elaborando minha ideia, eu imaginei que o Nobre deveria evoluir para Barão, Visconde, Jarl[1], Marquês e Duque antes de se tornar parte da Realeza, obtendo empregos como Rei ou Imperador. Assim, como um filho de um barão, o emprego de Oregeru é Nobre, então as diferenças entre um barão e um visconde não devem ter relação com empregos. Quando eu murmurei isso, Haru franziu a testa.

(Haru): “Mestre, além daqueles que foram reconhecidos pelas Deusas-sama, a Realeza só aparece para a família real e os Nobres não são capazes de mudar seu emprego para entrar na Realeza. Se alguém te escutar dizendo isso, você poderia ser punido por blasfemar”

(Ichinojo): “… então é assim”

Que assustador… blasfemar só por falar isso.

Esta sociedade onde os Nobres nascem entre a nobreza e o abismo entre os pobres e os ricos e as diferenças nos status não podem ser superadas.

Além disso, a existência de empregos ligados a lei e a administração estão disponíveis apenas para a nobreza, como é o caso do Juiz ou Assessor Político. Isso só mostra a superioridade dos nobres neste mundo.

… mas algo é estranho. Eu ficaria convencido por este cenário que só favorece a nobreza se ele tivesse sido criado por nobres, mas aqueles que criaram o sistema de empregos não são os humanos, mas uma existência ainda maior… provavelmente as Deusas?

Eu não sei o porquê elas iriam favorecer os nobres tanto assim.

Para ser honesto, olhando para Oregeru, eu sinto que os nobres se cobrem com um ar de importância, mas eles não parecem se destacar para mim.

Eu não acho que a figura deles é formidável nem que a força deles é algo notável.

Se ele tivesse força, ele poderia simplesmente desafiar Haru para um duelo e vence-la para compra-la.

eh?

Eu involuntariamente pensei em algo.

(Ichinojo): “Pensando bem, Oregeru queria comprar Haru, não é?”

(Haru): “… sim, isso mesmo”

(Ichinojo): “Então por que ele não usou um substituto? Ele poderia contratar alguém para lutar com Haru e depois que essa pessoa vencesse, ele poderia transferir a propriedade de Haru para Oregeru, assim ele não se tornaria seu novo mestre? Eu acredito que um nobre seria capaz de fazer algo desse tipo”

Haru é definitivamente forte, mas não é como se ela possuísse uma força inumana.

Eu não vejo motivo para um nobre como ele não usar sua influência.

Bem, é uma história diferente se o poder de um barão for menor do que o que eu imaginei. Afinal, o pariato[2] de um barão é o menor entre a nobreza.

(Haru): “… isso… desculpe, eu nunca considerei isso”

(Ichinojo): “Entendo… talvez… o próprio Oregeru não tenha pensado nisso”

Mas mesmo se isso não tenha passado por sua cabeça, eu sinto que aquele criado dele, Sebastan, deve ter pensado.

Ou será que ele não estava tão interessado em Haru.

Se for isso, talvez ele já tenha até esquecido da aparência de Haru? Quem sabe ele tenha pensado em comprar Haru por capricho e já se esqueceu disso, mas as pessoas ao redor dele são as que estão causando uma confusão…

(Ichinojo): “Se é esse o caso, então não precisamos nos preocupar, porém… Haru, o cheiro continua em frente?”

Nós descemos o décimo andar e chegamos até o 11º.

Contudo, nem um único monstro apareceu ainda.

(Haru): “Sim, ele segue em frente… está tudo bem, contanto que eles ainda não tenham chegado no 24º andar”

(Ichinojo): “O que tem no 24º andar?”

(Haru): “De acordo com o que eu ouvi, os monstros do 24º andar são Minotauros. No entanto, para uma área tão grande, o intervalo em que os monstros aparecem é bem pequeno e eles tem muito |HP, então leva muito tempo para derrota-los”

(Ichinojo): “Entendi. Então está tudo bem se um ou dois aparecerem, mas será difícil se todos os Minotauros do andar atacarem juntos”

(Haru): “Sim, vamos nos apressar!”

… para mim, não importava muito se Oregeru sobrevivesse ou não.

Entretanto, não é certo deixar Carol se sentir culpada por deixa-lo morrer.

Me lembrando dos olhos dela que desejavam sua própria morte, eu apressei meus passos.


História secundária

(Jofre): “… bom dia Elise. É uma ótima manhã”

(Elise): “… bom dia Jofre. É uma ótima manhã”

Uma da tarde. Em um horário que não podia ser chamado de forma alguma de manhã, as duas pessoas acordaram.

(Jofre): “Nós com certeza dormimos bem”

(Elise): “Eu tive uma ótima noite de sono… eu imediatamente fiquei sonolenta depois que comi aquele cogumelo”

Esses dois, dentro do |Labirinto| desconhecido, encontraram dois cogumelos que cresciam ali e os comeram com grama juntos de Centauro.

Os dois não perceberam que esses cogumelos eram altamente venenosos, mas eles também não sabiam que comer grama com eles atuava como um antídoto.

Como resultado, eles estavam milagrosamente livres do veneno e tiveram êxito em encher seus estômagos com nutrientes.

Contudo, o antídoto só não era capaz de neutralizar o componente do cogumelo altamente venenoso que os induzia ao sono, o que explica o porquê eles terem acabado desmaiando.

A propósito, nenhuma grama que servia de antídoto sobrou. Centauro comeu tudo.

(Jofre): “Hey. Elise, estou curioso sobre uma coisa desde ontem. Esta espada… há palavras escritas nela”

(Elise): “Ah. Tem mesmo. Tem palavras escritas em branco”

“Esta espada funciona como um selo para um indivíduo perverso. Ninguém nunca deve tocar nela. Ninguém nunca deve tentar puxar ela”

Isso era o que estava escrito.

De forma alguma a alfabetização deste mundo era alta, porém, esses dois pareciam ser capazes de ler corretamente as palavras e estavam perdidos em pensamentos.

(Jofre): “Me pergunto o que ‘indivíduo perverso’ significa?”

(Elise): “Hmmm. Talvez um demônio?”

(Jofre): “Um demônio selado, huh… estar selado significa estar preso, certo?”

(Elise): “Há um demônio dentro da espada?”

(Jofre): “Parece ser bem apertado aí. No passado, eu fiquei preso em um depósito, mas eu com certeza não quero passar por isso de novo”

(Elise): “Eu me sinto mal pelo demônio”

… as duas pessoas concordaram um com o outro.

O pensamento passando em suas cabeças era resgatar o pobre demônio.

(Jofre): “Muito bem. Eu vou puxar ela…”

(Elise): “Tenha cuidado Jofre”

(Jofre): “Deixa comigo! Eu posso cumprimenta-lo corretamente se o demônio sair!”

(Elise): “Ah. Meu vestido está um pouco sujo, mas isso não vai ofender o demônio, certo?”

(Jofre): “Não se preocupe. Elise é uma beldade, não importa o que vestir”

(Elise): “Jofre também é lindo, não importa o que vista”

Os dois estavam sendo afetuosos um com o outro como sempre, mas eles priorizaram o resgate do pobre demônio diante deles.

Poeira se acumulou na espada, mas Jofre apertou com força sua guarda na tentativa de puxa-la.

Mas a poeira se espalhou assim que ele a segurou, irritando seu nariz.

(Jofre): “Ah… ah… achoo!”

Ao mesmo tempo que ele espirrou, ele empurrou a espada para dentro do pedestal.

Então aconteceu.

A parede com letras se partiu em dois e uma pequena sala apareceu.

(Jofre): “O que é isso?”

Jofre soltou a espada e foi até a parede aberta, encontrando dois itens.

Um deles era uma bolsa.

(Elise): “Jofre, isso é uma [Bolsa de Itens]

(Jofre): “Sério! Esse não é um item super raro!? Além disso, parece ser uma que não foi usada. Vê, as esferas podem entrar”

(Elise): “Eh? Ah. Meu item não entra”

Jofre estava encantado quando as esferas de mármore postas atrás da [Bolsa de Itens] entraram, enquanto Elise estava desapontada quando seu chicote foi repelido pela [Bolsa de Itens]. Eles não pensaram nem por um segundo que eles poderiam conseguir uma enorme quantia de dinheiro se vendessem esse item enquanto ele ainda não estivesse em uso.

(Jofre): “Elise, isso não importa. O que me pertence é seu também. Nós podemos usar isso juntos”

(Elise): “É verdade Jofre. Eu estava errada”

Assim, os dois disseram “Deixando isso de lado” e olharam para a espada.

Eles precisavam salvar o pobre demônio.

Com esse pensamento, Jofre mais uma vez agarrou a guarda da espada.

(Jofre): “Muito bem, aqui vou eu Elise!”

(Elise): “Sim Jofre!”

No momento em que Jofre puxou a espada… o chão desapareceu.

(Jofre e Elise): “Eh?”

No instante seguinte, Jofre, Elise e Centauro… duas pessoas e um burro caíram no fundo do abismo.

Jofre tinha feita a escolha correta inconscientemente, mas no fim, ele tomou a decisão errada.

Dez segundos depois, apenas o pedestal e a espada continuavam no |Labirinto|.

Entretanto, o papel deste |Labirinto| já tinha terminado. O selo do perverso já tinha sido desfeito.


[1] Jarl era como eram chamados os homens de classe alta e grandes proprietários de terras. Provavelmente, essa palavra é relacionada à palavra que originou a palavra anglo-saxã earl.

[2] Pariato é um sistema de títulos da aristocracia, historicamente usado em muitos sistemas monárquicos de governo.