Prólogo (Volume 04)

Miri estava comprometida com a escalada do Monte Fuji.

Usando tênis para exercícios, um uniforme escolar preto (uniforme de inverno) e um casaco.

Com uma aparência que parecia dizer que ela estava subestimando o Monte Fuji, mesmo ainda não sendo inverno, os escaladores ao redor olharam para ela com olhos cheios de suspeita e houve até alguns entre eles que queriam avisar sobre os perigos, mas eles não conseguiam falar depois de serem atingidos pela aura que ela estava emitindo.

Os olhos dela estavam cheios do ódio por algo que ela ainda não tinha esquecido.

Uma vez… e isso foi há mais de mil anos…

Na época que era conhecida como Era Heian[1]

Uma garota foi marcada para morrer no Monte Fuji.

Essa garota era apreciada por sua beleza inigualável e fascinava muitos homens, encantando os corações das pessoas dessa época, incluindo até o Imperador.

Ela pensou que isso era a felicidade. Ela pensou que tinha obtido tudo.

Até que aqueles homens apareceram.

Um grupo de Onmyojis[2] visitaram o Imperador e o pediram para acalmar a fúria do Monte Fuji ao usar os poderes magníficos dela.

Colocando de forma simples, usar o poder dela era o mesmo que usa-la como um sacrifício humano.

Os Onmyojis perceberam que o próprio poder deles não seria capaz de realizar nada e eles decidiram usar a vida dela para impedir a erupção do Monte Fuji.

E esses Onmyojis possuíam grandes poderes.

Ao ponto em que, mesmo ele sendo o Imperador, ele não desejaria os fazer seus inimigos.

Ao ponto em que seria considerado um pequeno preço a se pagar se eles tivessem que sacrificar apenas uma única garota.

E eles receberam permissão para leva-la…

Até o cume do Monte Fuji…

Lá, ela deveria ter seu corpo queimado e morrer.

Contudo, ela não morreu.

A Deusa… os Deuses do |Outro Mundo| transportaram o corpo dela para esse mundo diferente.

E usando o poder concedido a ela pela Deusa… ela reencarnou como um Demônio. Depois de viver por centenas de anos, ela se tornou um Lorde Demônio.

Foi então que ela se nomeou Familis Raritei.

Doze anos atrás, ela foi selada pelo Herói e sua alma foi enviada para o Japão.

Então, ela ficou surpresa quando ela foi reencarnada como uma japonesa.

Que o país dela mudou tanto em apenas um milênio.

Assim, quando ela cresceu e se tornou capaz de ler, ela descobriu sua história…

No fim, graças a sua reencarnação em um mundo diferente, ela não completou seu papel como um verdadeiro sacrifício humano e o Monte Fuji entrou em erupção diversas vezes durante o Período Heian, causando muitas mortes.

Ela descobriu sobre sua própria morte e que seu nome foi embelezado como o conto da Princesa Kaguya[3].

Sem saber se o poder da Deusa estava incompleto ou se foi devido a algum outro fator, essa história foi deixada para trás como o mais antigo conto do Japão.

É claro que considerando a época, muitos dos conteúdos do conto foram drasticamente alterados em relação aos fatos históricos. Porém, devido ao trabalho de seus pais nessa época e o fato de seu nome ser escolhido em homenagem ao tesouro que eles pediram para os nobres buscarem, sem sombra de dúvidas, eram provas de que ela foi usada como modelo para o conto.

Ela só podia dar um sorriso sem graça ao ver que a mensagem do Monte Fuji foi escrita como uma mensagem para a lua.

É provável que isso tenha acontecido porque o Monte Fuji era o local onde a lua aparecia quando se estava na capital.

Mesmo assim, Kaguya… Familis Raritei… não, Kusunoki Miri estava a ponto de conhecer a paz.

Sendo reencarnada, conhecendo Onii, aproveitando dias pacíficos, ela era grata ao Herói que a enviou para este mundo pacífico.

Apesar disso, sua paz foi arruinada.

Então ela fez seu movimento.

Chegando ao cume do Monte Fuji, sem se preocupar com os olhares das pessoas ao redor, ela pegou uma faca de cozinha e, sem hesitar, perfurou seu próprio coração.

Então, as pessoas ao redor já não podiam mais ver ela.


(Ichinojo): “Incrível, isto está tão diferente apenas pelo uso da faca de cozinha mágica durante a preparação?”

A comida deliciosa que eu estava saboreando foi preparada pela tia da estalagem e fez com que eu me sentisse melhor.

Eram as mesmas batatas salteadas[4] com carne, mas ela preparou dois de cada prato, um usando a faca mágica e outro sem usa-la.

A diferença no sabor era evidente.

(Ichinojo): “Parece que Kannon não é mesmo apenas uma trapaceira”

(Marina): “É claro que não. Se você está falando da minha aliada, a verdadeira Kannon, ela pode facilmente criar uma espada de ferro que pode até cortar gelatina de konnyaku[5]

(Ichinojo): “Se uma espada de ferro pode cortar gelatina de konnyaku ou não, isso seria uma função secundária”

Enquanto eu estava conversando com Marina, Haru e Carol ficaram com caras que diziam “Gelatina de konnyaku?”

Estou com medo de que na imaginação delas, a gelatina de konnyaku se tornou um metal incrivelmente resistente.

Depois que terminamos nossas batatas salteadas com carne, nós discutimos como prosseguir a partir daqui.

Carol ouviu alguns relatos na cidade da fronteira do Norte que a estrada do vale que leva para a cidade da fronteira do Sul cedeu.

Ontem, Carol também adquiriu informação na cidade dizendo que ainda vai levar algum tempo até a estrada ser consertada.

Com isso, parece que vamos ficar nesta cidade por um tempo.

(Ichinojo): “Por enquanto, como discutimos na última noite, Haru vai aceitar pedidos de subjugações de monstros da Guilda de Aventureiros e nós vamos seguir com a estratégia de matar três pássaros com uma pedra: ganhar experiência; ganhar dinheiro e aumentar o rank de aventureira de Haru”

Sobretudo, nós vamos aumentar o Level da Tentadora de Carol.

Em primeiro lugar, não é necessário usar de forma intencional as habilidades da Tentadora para aumentar seu Level.

Aparentemente, o Level aumenta apenas por matarmos monstros após ela se transformar em Tentadora durante o dia.

É claro que não esquecemos sobre esse fato porque Carol sabe que a Tentadora é um emprego que atrai monstros durante a noite.

Eu espetei uma batata com meu garfo.

A batata se partiu em três pedaços com meu ataque.


Saindo da cidade, diferente de ontem, parece que algo aconteceu porque há muitas pessoas fazendo barulho.

Apesar de estarmos em um horário diferente do de ontem, não apenas a aparência dos aventureiros está melhor, mas também há muitos Mascates com bagagens cheias parecendo que vão deixar a cidade.

Passando na frente dos estábulos, eles deveriam estar cheios como no dia anterior, mas agora, metade dos cavalos se foram.

Parece que alguma coisa aconteceu e eles estão tentando escapar da cidade.

(Ichinojo): “O que aconteceu?”

(Carol): “Eu devo ir perguntar?”

(Ichinojo): “Okay”

Carol me perguntou isso, então eu a pedi para me fazer esse favor.

Carol correu um pouco e se aproximou de algumas donas de casa que estavam conversando.

Como se fosse algo natural e como se ela fosse uma velha amiga delas, Carol entrou no meio da conversa e depois de alguns minutos, ela correu de volta.

(Carol): “Aparentemente, tarde da noite de ontem, uma aventureira veio notificar os cidadãos de que há uma horda de monstros se aproximando da cidade”

(Ichinojo): “Entendo… então é por isso que os Mercadores estão fugindo e os aventureiros estão correndo pela cidade para juntar informação. Quando os monstros vão chegar?”

(Carol): “No pior caso, daqui a dois dias, mas os batedores[6] das tropas deste país foram enviados para verificar a autenticidade dessa informação e se eles descobrirem que é verdade, o exército do país vai ser acionado para exterminar os monstros. Com isso, as pessoas desta cidade estão mais preocupadas com a possibilidade de |Korat| usar isto como uma oportunidade para atacar do que com os monstros”

Entendi.

Eu gostaria de ajudar se for uma luta contra monstros, mas se formos lutar contra outros humanos eu vou ter que recusar.

(Carol): “Devido a essa situação, as missões de subjugação de monstros na Guilda de Aventureiros foram todas canceladas e foram substituídas por uma missão emergencial para defender esta cidade”

(Ichinojo): “Entendo. Então talvez nós possamos apenas exterminar os monstros ao redor desta cidade por enquanto. Marina também precisa praticar com o arco”

Eu disse isso com bastante calma.

Talvez por ser japonês, eu não ache que guerras vão acontecer com tanta facilidade.


Nota do Autor (Yousuke Tokino)

Então aqui está. O quarto volume começou.

Como muitos de vocês suspeitaram, a verdadeira identidade de Miri é a de um antigo residente do |Outro Mundo| e o antigo Lorde Demônio.

Eu planejava escrever a história de Miri em primeira pessoa, mas eu acabei decidindo escrever em terceira pessoa.


[1] O período Heian é a última divisão da história clássica japonesa, indo de 794 a 1185. O período recebeu o nome da capital da época, Heian-Kyo, a atual Kyoto. Foi o período da história japonesa no qual o budismo, o taoísmo e outras influências chinesas atingiram o seu máximo. O período Heian também é considerado o pico da corte imperial japonesa e é marcado por sua arte, especialmente poesia e literatura.

[2] O Onmyōdō é uma cosmologia esotérica tradicional do Japão, uma mistura de ciência natural e ocultismo. É baseado na filosofia chinesa de Wu Xing e Yin e Yang, introduzido no Japão na virada do século seis, e aceito como um prático sistema de adivinhação. Essas práticas foram mais influenciadas pelo Taoísmo, Budismo e Xintoísmo, e evoluiu para o onmyōdō de hoje em dia aproximadamente no século sete.

[3] Também conhecido como o Conto do Cortador de Bambu. É uma narrativa popular japonesa do século X considerada a mais antiga narrativa japonesa existente.

[4] Saltear vem da palavra Sauté, um termo que vem de uma palavra francesa que significa “saltar”. Na culinária, sauté é pôr a comida em panela muito quente, com um pouco de manteiga ou óleo, e sacudi-la durante o processo de cozimento.

[5] Konnyaku é um alimento da culinária japonesa produzido a partir da batata konjac, nativa do leste e sudeste asiático. Sua aparência é gelatinosa e translúcida, sendo comercializada em mercearias de produtos japoneses na forma de bloco ou em fios semelhantes a macarrão.

[6] Batedor é o soldado que vai a frente de um exército para explorar o terreno.