Noite de insônia

A noite caiu assim que estávamos em nosso caminho para a |Cidade de Gagarian|.

Noites em desertos são geladas, mas elas não eram tão frias.

Hoje, nós teríamos que passar a noite fora no meio do deserto.

Eu preparei uma fogueira, assei os peixes que peguei no caminho para este país e comi.

[Ichinojo]: (“… está faltando tempero e não é realmente um peixe saboroso. É um pouco difícil trabalhar com apenas sal”)

Eu pensei em refazer isso enquanto olhava para Hariel.

(Hariel): “É muito delicioso Ichinojo-sama. Muito obrigado, você até mesmo usou o valioso sal no processo”

(Ichinojo): “… é mesmo? Estou feliz”

Isso provavelmente não foi seu verdadeiro sentimento. A expressão de Hariel quando ela mordeu o peixe no espeto não escapou de meus olhos.

Contudo, para responder a minha boa vontade e para repor a força para atravessar o deserto, ela escondeu seus verdadeiros sentimentos e comeu o peixe.

[Ichinojo]: (“Ela é uma boa garota… ela não mostra a arrogância de um nobre…”)

Eu olhei para o meu próprio peixe e afundei meus dentes nele mais uma vez.

Ela é uma boa garota, mas eu não pretendo deixá-la entrar no |Meu Mundo|.

Eu armei a tenda que peguei da [Bolsa de Itens] de Miri.

(Hariel): “Esta tenda é feita de algum pano incomum. Ela parece muito resistente”

Hariel tocou a tenda amarela. Provavelmente foi porque não havia tendas de fibras sintéticas neste mundo. Ou talvez não, já que Daijiro-san inventou navios voadores, ela poderia ter criado algo tão simples como fibra sintética também.

(Ichinojo): “Hariel pode dormir aqui dentro esta noite”

(Hariel): “Mas eu me sentiria mal por Ichinojo-sama. Pelo menos deixe-me agir como uma vigia”

(Ichinojo): “Hariel tem uma boa visão noturna? Ou você tem a habilidade Detecção de Presença?”

(Hariel): “… não, eu não tenho nada disso”

(Ichinojo): “Nesse caso, deixe isso comigo”

Eu disse enquanto jogava lenha na fogueira. Hariel mostrou uma expressão de culpa, mas ela estava totalmente consciente de que ela não teria nenhuma utilidade, assim ela entrou na tenda.

A madeira crepitava na fogueira.

Minha habilidade Detecção de Presença só detectou Hariel dentro da tenda.

E a presença dentro da tenda ocasionalmente se movia um pouco.

Provavelmente não era porque ela tinha uma postura ruim ao dormir, mas sim porque ela não conseguia adormecer.

Em um deserto desconhecido com um cara que ela só conheceu hoje a seu lado.

Não havia forma de ela conseguir dormir bem em tal situação.

Eu me senti mal por ela, mas eu estava feliz por ela estar por perto.

Viajar por conta própria era solitário demais.

E, ao mesmo tempo, eu descobri o quanto a companhia de Haru e as outras significava para mim.

Eu me lembre do dia que me separei de Haru e as outras enquanto eu estava na vigília da noite.

Naquele dia, em |Porto Kobe|


(Garota): “Muito obrigada. Sério, muitíssimo obrigada”

Depois de voltarmos para |Porto Kobe|, nós seguimos para a Guilda de Aventureiros e entregamos o remédio especial para a Doença da Petrificação para a garota que era a cliente.

Assim, a jovem garota me entregou o dinheiro.

Para mim, não havia necessidade de aceitar o dinheiro, mas era a boa vontade pela qual ela deu o seu melhor, então seria rude rejeitar isso.

É sério, quando foi que ela… eu pensei comigo mesmo. Na [Bolsa de Itens] que Miri deixou para trás, havia o remédio feito com a [Erva Kiriri] e até uma prescrição escrita com concisão com as instruções de consumo. E, por algum motivo, havia o bastante para cem pessoas também.

(Ichinojo): “Depressa, vá para casa e cuide da sua mãe. Aliás, eu mencionei isso há pouco, mas o remédio não vai mostrar seus efeitos imediatamente, ele só vai fazer isso depois de três dias de consumo, três vezes por dia, logo depois de acordar, à tarde e à noite. Mas você tem que ter certeza que sua mãe continuará bebendo o remédio por uma semana”

(Garota): “Sim, muito obrigado”

A garotinha se curvou e correu com passos pequenos.

(Haru): “Mestre…”

Haru ficou a meu lado e parecia querer dizer algo.

(Ichinojo): “Ah, Haru. Eu vou deixar isto com você. Mas não se esforce demais”

Alguns homens dentro da Guilda de Aventureiros me viram entregando o remédio para a garota e silenciosamente se levantaram de seus assentos depois que a garota partiu.

Eles provavelmente pretendem interceptar o remédio.

Haru concordou com minhas palavras e seguiu os homens.

Bem, se um dos homens não tivesse o emprego de Ladrão Lv13, eu não teria nem notado isso.

Realmente, há ladrões em toda parte. Como é que eles entraram na cidade?

Talvez ela soubesse mais sobre isso. Avançando para ocupar o lugar de Haru, Carol voltou de sua coleta de informação.

(Carol): “Ichino-sama, estou de volta”

(Ichinojo): “Bem-vinda de volta Carol”

Nós alugamos uma sala privada do recepcionista e mudamos de local para essa sala.

Era uma regra que apenas Aventureiros poderiam alugar a sala privada, mas o recepcionista se lembrou de Miri e efetuou o pedido assumindo que eu era o assistente de Miri. O pedido para usar a sala privada parecia ser bem flexível.

(Carol): “Haru-san parecia estar saindo, mas para onde ela estava indo?”

(Ichinojo): “Apenas uma escolta para o cliente por um tempo. Eu acredito que ela vai voltar logo… mais importante, como foi?”

(Carol): “Ichino-sama, os barcos regulares não vão zarpar até a próxima semana. Além disso, velejar para o Continente do Sul em embarcações pessoais será perigoso dada a situação. A situação do Continente do Sul está atualmente insegura. Apesar de se Ichino-sama usar magia para afundar todos os navios de guerra que nos atacarem… isso pode ser possível”

(Ichinojo): “… naturalmente, eu não posso fazer algo como isso”

Se eu tivesse que dizer se era possível ou impossível, eu diria que era possível, porém, eu não poderia expor Haru e as outras ao perigo.

Eu queria perseguir Miri e Daijiro-san naquele instante, mas eu acho que eu terei que esperar até a próxima semana.

(Carol): “Há outro método para viajar para o Continente do Sul”

(Ichinojo): “Sério?”

(Carol): “Sim… embora isso seja um pouco perigoso. Há a opção de ser contratado como um guarda de um navio mercante”

Guarda de navio mercante?

Eu certamente seria capaz de chegar ao Continente do Sul dessa forma, mas eu não teria que ir até a Guilda de Aventureiros para tais tarefas?

Um não Aventureiro como eu poderia aceitar tais pedidos?

Ou eu teria que usar o nome de Haru?

Enquanto eu estava pensando, Carol sussurrou para mim.

(Carol): “Entretanto, esse navio mercante é na realidade um navio de contrabando”

(Ichinojo): “!?!?!? Quarto do Silêncio

Eu estava a ponto de exclamar de surpresa, mas eu engoli isso e ativei o feitiço do Quarto do Silêncio, adequado para conversas secretas.

(Ichinojo): “Contrabando!?”

(Carol): “Sim, durante esta estação, graças a pesca do Camarão Shijimon, até os Piratas irão proteger os pontos de pesca, então os navios mercantes que normalmente pedem aos Piratas por escolta, não vão zarpar. O Continente do Sul está ciente disso, então a segurança do mar aberto deles estará relaxada. Durante essa oportunidade, contrabandistas conduzem suas atividades”

(Ichinojo): “… então, nós vamos ajudar os contrabandistas”

Eu acabei de ajudar Piratas também, mas esse foi o primeiro crime deles e ainda havia espaço para reabilitação.

Se uma única pessoa entre eles tiver o emprego de Ladrão, eu definitivamente não iria ajudá-los.

Contudo, a situação era diferente neste caso. Pelo que eu escutei, eles pareciam uma gangue de contrabandistas veteranos.

(Carol): “Não, é o oposto. Com o objetivo de atacar os contrabandistas, nós vamos realizar uma investigação secreta para adquirir informação. Ichino-sama pode assumir esse papel”

(Ichinojo): “Não, não, isso é impossível. Não há forma de uma pessoa comum como eu realizar uma investigação secreta”

(Carol): “Eu sinto que Ichino-sama ficará bem. Afinal, um dos investigadores provisórios é Suzuki-sama”

(Ichinojo): “Suzuki, aquele Suzuki!?”

Suzuki… o Herói virgem Suzuki.

Um japonês que eu conheci no país de |Dakyat|.

Um Cavaleiro Sagrado que se autoproclamou um Herói e um riajuu[1] desprezível que viaja com três lindas damas… ou assim eu pensava, mas ele na verdade era um cara preso em uma circunstância infernal onde ele estava viajando com essas três, mas era incapaz de tocar qualquer uma delas devido a várias circunstâncias.

Eu estava certo de que ele foi limpar o deslizamento de terra em |Ferruit|, mas ele já estava nesta cidade?

Como foi que ele chegou em |Porto Kobe| de |Porto Ithaca|? Eu pensei comigo mesmo, mas me lembrei que ele tinha um Wyvern[2] chamado Pochi. Logicamente, com um Wyvern, eles poderiam viajar para a costa próxima de |Porto Kobe|.

(Ichinojo): “Você sabe onde Suzuki está agora?”

(Carol): “Sim, por sorte, ele está vivendo sozinho em uma estalagem próxima”

Talvez ele estivesse agindo separado de suas companheiras.

(Ichinojo): “Vamos logo depois que Haru voltar… não, não podemos partir imediatamente. Ainda temos que esperar por Kannon e Norm, que estão pegando nossas bagagens, além disso…”

Desfazendo o Quarto do Silêncio, eu saí da sala para encontrar dois homens inconscientes com Haru os arrastando.

Levaria algum tempo para reunir informação nessas circunstâncias.


[1] Riajuu é uma pessoa bem-sucedida ou realizada. É uma expressão normalmente usada por Otakus para demonstrar sua inveja por casais.

[2] Serpe, também conhecida pela muito usada designação inglesa wyvern, é todo réptil alado semelhante a um dragão, mas de dimensões distintas, muito encontrado na heráldica medieval. Geralmente as serpes apresentam apenas duas patas (ao contrário dos dragões ocidentais, que sempre possuem quatro), sendo que no lugar das dianteiras estão suas asas, o que a torna similar a uma ave. Diferentemente dos dragões citados em diversas histórias, é muitas vezes tida mais como um ser desprezível do que como sábio.