Diário secundário

(Jean): “Aí está você Mestre”

(Mestre): “Você terminou de ler isso?”

(Jean): “Terminei. Seria bom que você desse uma lida também”

(Mestre): “Hmmm… tudo bem, mas ele parece ser bem longo”

O diário estava quase completamente preenchido. Parecia que havia o equivalente a alguns anos registrados ali.


Meu corpo esteve assim por quase três anos.

Hoje, eu decidi que iria escrever um diário. Eu realmente não sei o porquê eu decidi fazer isso, eu apenas senti que deveria. Eu não acho que serei capaz de escrever um registro todos os dias, então eu vou tentar escrever pelo menos uma vez por semana.

É possível que alguém possa acabar vendo este diário em algum momento no futuro. Assim, pessoa, quem quer que você seja, eu vou escrever um pouco da minha apresentação para você saber mais sobre mim.

Eu acho que a primeira coisa que eu devo escrever é sobre a minha localização atual. Para ser sincero, em primeiro lugar, eu realmente não sei exatamente onde eu estou, mas eu sei que tipo de lugar é esse.

Eu estou em uma pedra gigante flutuante, um dos experimentos secretos do |Reino Raidos|. Quanto a mim? Eu era apenas um dos ratos de laboratório deles.

Eu realmente não sei exatamente que tipo de experimentos eles faziam aqui, mas me parece que era algo relacionado com os militares.

Eles me usaram como parte de um experimento com Necromancia. Mais uma vez, eu realmente não sei muitos detalhes ou nada parecido. Tudo o que eu sei é que eu queria morrer. E eu não estou dizendo isto como se fosse um sentimento passageiro. Isso é algo que eu estive remoendo há muito tempo. Eu quero morrer.

Você poderia facilmente dizer que os pesquisadores realmente não nos viam como seres humanos. Para eles, nós éramos cobaias, nada mais, nada menos. É como se eles não entendessem o significado das palavras “tratamento humano”.

Mas, é, um dia, muitas coisas ruins aconteceram, ou eu devo dizer coisas boas? Eu realmente não tenho certeza de qual é o correto. De qualquer forma, muitas coisas aconteceram, e eu fui privado de tudo o que me fazia humano.

Eu ainda posso me lembrar do que aconteceu naquele dia em detalhes vívidos. Naquele dia, eles me mataram. Depois de cortarem ambas as minhas pernas e meu braço direito em uma série de experimentos, eles decidiram se livrar de mim ao me usarem em um último experimento de larga escala.

Eles me usaram, um Necromante vivo, em um experimento. Bem, na verdade, eu disse isso, mas eu era um Necromante bem fraco. Você mal poderia me chamar de um. Os únicos feitiços que eu poderia usar eram os feitiços Lv1 que eu consegui aqui nesta instalação. De qualquer forma, eles iam fazer isso. Eles iam me injetar maldições, rancores e malícia com o objetivo de tentar me transformar em um Morto-Vivo enquanto eu ainda estava vivo. Loucura, não é?

Mas, tanto faz. Nada mais importava. Eu ia morrer.

Eles me acorrentaram e me colocaram em um corredor com um círculo mágico gigante desenhado dentro. Incontáveis maldições foram postas dentro do meu corpo. Eles usaram uma barreira em conjunto com um tipo de técnica especial para fazer com que eu não rejeitasse as maldições enquanto eles eram colocadas em mim, e assim, encontrando um corpo para possuir, toda a malícia disparou em minha direção e me preencheu em um instante.

E foi então que aconteceu.

Eu não poderia dizer o que a Deusa estava tentando fazer naquele dia. Ela estava tentando me mostrar sua misericórdia? Ou ela estava apenas pregando uma peça em mim? Eu não poderia dizer.

Um [Núcleo do Calabouço] subitamente apareceu na sala em que eu estava.

Havia várias letras nele, mas eu não poderia dizer o significado de qualquer uma delas na época.

O que eu sabia era que o [Núcleo] poderia aparecer em qualquer outro lugar. Mas ele apareceu aqui, bem na minha frente.

Eu ainda não sei o porquê ele aparecer naquele momento. Foi apenas uma coincidência? A Deusa do Caos[1] estava apenas brincando comigo? Ou ela estava apenas com pena de mim?

Eu não sei, e até hoje não sei.

Tudo o que eu sabia era que o [Núcleo do Calabouço] me reconheceu como seu mestre. Ele energizou meu corpo e me permitiu absorver cada gota de malícia que veio em minha direção. E assim, o ritual me transformou de um humano vivo e comum em nada além de uma criatura Morta-Viva.

Eu deveria ter me tornado um Mago Zumbi, um Morto-Vivo de classe inferior. Mas mesmo assim, eu era muito mais poderoso do que quando estava vivo.

Mas o fato de que eu me tornei um Mestre do Calabouço e o fato de que eu absorvi até a última gota de rancor e maldição me transformaram em algo completamente diferente.

Por algum motivo, eu acabei me tornando um Lich. No início, eu pensei que era apenas um Esqueleto, mas eu logo percebi que eu me tornei um Lich. Minha transformação me concedeu mais do que vinte habilidades e feitiços diferentes.

Na realidade, houve um intervalo de três dias entre o [Núcleo do Calabouço] aparecendo e eu despertando. Eu realmente não sabia o que tinha acontecido durante esses três dias, mas o que eu sabia era que todos os humanos na ilha foram derrotados pelos Mortos-Vivos e exterminados. Descobrir sobre esse fato me fez congelar pelo choque por alguns momentos.

Alguns iriam até chamar a transformação que sofri de evolução, um dos objetivos finais da Necromancia.

Mas eu acho que isso era o mais longe da verdade que você poderia chegar.

Meu senso de moralidade parecia ter sumido junto com minha humanidade. Meu coração parecia estar completamente seco, e assim, eu tentei saciar sua sede. Eu explorei a ilha e destruí qualquer um dos pesquisadores que se tornaram Mortos-Vivos.

Mas isso não foi o suficiente.

Ódio continuou a surgir de cada uma das fibras do meu ser.

Isso dói. Eu não poderia fazer nada além de odiar os humanos ao ponto em que sentia dor. Eu sentia o impulso de arruinar por completo suas vidas, de destruir tudo e qualquer coisa que eles algum dia amaram. Eu queria matar até o último deles, apagar sua própria espécie da face da terra.

Vingança.

Eu queria vingança.

Vingança era a única razão pela qual eu existia agora.

Eu queria vingança.

Mas eu também não queria.

Me tornar um Lich foi algo parecido com um milagre. Eu finalmente estava livre da minha vida como um rato de laboratório. Eu queria passar o resto dos meus dias em paz, viver tranquilamente e aproveitar minha segunda chance na vida.

Eu não queria matar.

Contudo, a malícia dentro de mim queria. Ela recusava meus apelos e me dizia para fazer apenas uma coisa.

Matar.

Buscar vingança.

Ela me forçou a agir. Eu não podia me controlar.

Hey, você, a pessoa lendo este diário. Eu não sei quem é você ou que tipo de pessoa você é. Eu não sei se você é um inimigo ou um aliado, uma boa ou má pessoa. Mas, de qualquer forma, eu espero que você diga ao mundo sobre o que aconteceu aqui. Por favor, informe ao mundo dos pecados do |Reino Raidos| e liberte nossas almas dos grilhões da miséria.

 

  • 7 de abril, 3619

Hoje é o dia que eu comecei meu diário. Nada de notável aconteceu, além de eu decidir escrever isto, é claro. Yeah, acho que isso é tudo. Quer dizer, isso é apenas um capricho.

Então, uhyeah, eu acho que eu vou ignorar o que eu fiz hoje.

Para começar, eu fiz o de sempre e aumentei um pouco o |Calabouço|. Então, eu fiz alguns Mortos-Vivos. Eu ainda não toquei nos corpos dos pesquisadores, nem nos corpos de meus colegas ratos de laboratório. Eu acho que vou focar na criação de subordinados e acumulação de [PD] por enquanto.

Oh, verdade, a propósito, [PD] é a sigla para [Pontos da Deusa]. Eu também não sabia disso até recentemente. Eu acho que eles são chamados assim porque você os oferece para a Deusa do Caos, ou algo assim.

 

  • 29 de setembro, 3619

Eu finalmente consegui superar dez mil [PD]! Agora eu devo ser capaz de produzir Mortos-Vivos em massa no |Calabouço|.

Eu também tentei escrever algumas coisas sobre o |Calabouço| em si, mas parecia que eu era incapaz de fazer isso. Eu posso tentar o quanto quiser, mas minhas mãos se recusam a se mover sempre que eu tento escrever sobre o [Núcleo do Calabouço].

Parece que há algum tipo de poder misterioso que me impede de fazer isso. É forte o bastante para deter um Lich, então eu acho que é provavelmente a Deusa ou uma existência equivalente.

 

  • 4 de novembro, 3619

Eu usei um monte de [PD] para fazer um subordinado poderoso. As instalações deixadas para trás pelos pesquisadores pareciam ter muitas coisas usadas na invocação de Mortos-Vivos, então eu adquiri todas elas por conta própria. Um dos itens nesse lugar era chamado [Osso do Herói]. Eu realmente não sei se ele pertenceu mesmo a algum herói, mas, tanto faz.

O que importava era que ele na verdade era um material poderoso como o nome implicava. Utilizá-lo me permitiu invocar um Esqueleto Lendário da classe Lutador. Ele até tinha uma Habilidade Extra com o nome Liberar Potencial Latente.

Eu tentei me desafiar em um duelo contra ele, e ele se saiu muito bem. Estou feliz, eu consegui obter um poderoso companheiro.

 

  • 31 de dezembro, 3619

O ano chegou ao fim. Este é o quarto Ano Novo que eu passo como um Lich. Eu tentei fazer um pouco de pão e sopa especiais para o Ano Novo. Na realidade, eu não posso comer, mas fazer isso me permitiu entrar no clima festivo.

Hmm… me pergunto que tipo de feriados Mortos-Vivos devem celebrar…

Não demorará muito até eu conseguir [PD] suficientes para o meu próximo objetivo. Eu quase posso sentir o gosto do [Ateliê de Criação de Mortos-Vivos] que eu estou a ponto de colocar minhas mãos. Eu realmente estou ansioso por isso, eu vou ser capaz de fazer ainda mais Mortos-Vivos agora.

 

  • 27 de fevereiro, 3620

Eu finalmente consegui o [Ateliê de Criação de Mortos-Vivos]. |Calabouços| certamente são estranhos. O [Ateliê] simplesmente apareceu magicamente no local que eu queria sem qualquer atraso.

O [Ateliê] era mesmo incrível, e um aumento de poder significativo também. O |Calabouço| agora era capaz de criar muitos tipos diferentes de Mortos-Vivos que eu não era capaz de criar antes. Eu estou ficando melhor em Necromancia, então eu também estou entendendo os segredos para invocar diferentes tipos de Mortos-Vivos.

O único problema é que eu não tenho muita certeza de que tipo de Morto-Vivo eu devo fazer.

Os Mortos-Vivos que o |Calabouço| criava tinham [Pedras Mágicas] dentro deles, e a maioria da |Mana acabaria voltando para o |Calabouço|, mas eles eram meio fracos.

Os Mortos-Vivos que eu fiz, meus parentes, não tinham [Pedras Mágicas]. Eles tinham almas falsas dentro de seus corpos no lugar. Eles acabaram se tornando muito mais forte, porém, eles realmente não ajudavam na circulação de |Mana do |Calabouço|. Além disso, seus núcleos eram basicamente feitos de rancor, então eles eram todos do tipo agressivo.

Eu poderia apenas deixar todos os Mortos-Vivos que o |Calabouço| produzia mais fortes se eu usasse o Controle Espiritual, mas fazer isso algumas centenas de vezes seria honestamente muita dor de cabeça para mim.

Muito bem, eu acho que eu vou dividi-los em dois grupos.

 

  • 18 de setembro, 3620

Parece que o curso da ilha flutuante começou a se estabilizar, sua rota se tornou bastante regular. Eu posso tentar mudar a direção dela, mas isso consumiria muita |Mana

Eu meio que estou preso no meio de vários países diferentes, mas, que seja, está tudo bem. Eu não estou tão longe do |Reino Raidos|, então deve ser bem fácil para eu conseguir vingança sobre eles. Afinal, é para isto que eu existo.

 

  • 14 de abril, 3621

O |Calabouço| cresceu muito, assim, minhas opções parecem ter se expandido também. Tudo o que eu posso dizer é que todas as instalações mais avançadas do |Calabouço| parecem incríveis.

Duas delas em particular realmente chamaram minha atenção. A primeira era uma enorme barreira que cobria o |Calabouço| inteiro. A segunda era algo que convertia malícia em |Poder Mágico. Ambas custam 300 mil [PD], então eu não seria capaz de obtê-las por um tempo.

 

  • 11 de setembro, 3621

Eu finalmente terminei a expansão do |Calabouço|. Ele agora abrange um total de dez andares e eu posso influenciar a ilha inteira além de cerca de mais cinquenta metros além dela.

Eu não acho que alguém será capaz de aterrissar na ilha com facilidade contando que eu reforce as unidades aéreas mais um pouco.

Eu acho que vou focar na criação de mais Mortos-Vivos e na adição de armadilhas por ora.

 

  • 20 de maio, 3622

Hoje marca a primeira vez que eu fiz um Morto-Vivo único em muito tempo. Eu usei dez mil [PD] para criar um Devorador de Almas.

Aparentemente, ele fica mais forte ao devorar os Mortos-Vivos, independente do fato de ele mesmo ser um Morto-Vivo. No momento, ele parece outro Zumbi comum, mas eu estou um pouco curioso na forma que ele vai assumir no futuro.

Eu decidi deixar ele vagar pelo |Calabouço| à vontade por enquanto.

 

  • 10 de outubro, 3622

Hoje, eu vou escrever bastante pela primeira vez em muito tempo.

Alguém finalmente veio ao |Calabouço|! Meu primeiro invasor! A princípio, eu pensei que ele tinha vindo seguindo ordens do |Reino Raidos|, mas, aparentemente, não era esse o caso.

Quer dizer, havia apenas uma única pessoa afinal, então eu imagino que ele deve ser um Aventureiro ou algo do tipo. Mesmo assim, ele era bem formidável apesar de ser um Necromante solitário. Ele estava montando um Grifo Esqueleto… algo que até eu sofria para invocar!

Os pássaros e morcegos Mortos-Vivos que eu invoquei deram o seu melhor para mantê-lo longe, mas o Grifo se provou poderoso demais e conseguiu passar por eles.

No entanto, a floresta fez exatamente o que eu planejava. Ela tinha um feitiço de ilusão preparado, então ela confundiu o Aventureiro e fez ele se perder.

Havia Mortos-Vivos em todos os cantos, então ele começou a ficar exausto.

Ele tentou recuar, então eu fiz alguns dos meus Mortos-Vivos mais poderosos irem atrás dele. O Devorador de Almas também ficou bem mais forte, então o enviei também. Meus Mortos-Vivos derrotaram o Necromante, mas ele ainda conseguiu escapar.

Que pena. Eu queria capturá-lo e conversar com ele. Se ele fosse do tipo simpático, eu poderia fazer dele um de meus subordinados.

Oh, bem, que seja. De qualquer forma, ele conseguiu me fazer sorrir pela primeira vez no que eu sinto que foram anos. Na verdade, eu acho que o sorriso que eu tinha no meu rosto hoje foi o maior que eu já tive na minha vida.

Eu ainda me lembro do que ele disse, “Fuhahaha! Que |Calabouço| formidável! Nunca considerei que eu, Jean Dovey, teria que escapar de uma perseguição!”.

Ele não estava tirando sarro de mim, estava? Eu acho que deve ser o contrário na verdade. Ele estava prestando homenagem ao meu |Calabouço| enquanto seu robe esfarrapado e acessórios em forma de caveira tremulavam com o vento. Entendo. Agora eu entendi. Isso é o que significa ser um verdadeiro Necromante.

E quanto a mim então? Quero dizer, eu sou um Lich e tal, mas eu não sou meio patético? Eu deveria ser mais como ele.

Tudo bem, é hora de mudar de atitude. Eu vou tentar prestar um pouco mais de atenção na forma como falo.

“Contemplem, pois eu sou um Lich, Governante dos Mortos-Vivos! Kukakakakaka!”. Hmm… isso pareceu muito bom, não pareceu? Er, quero dizer. Isso soou bem magnífico, não foi?

Esplêndido. Eu me sinto completamente maravilhado. Kukakakaka!

Vai levar algum tempo até eu me acostumar com isso.

 

  • 28 de outubro, 3623

Eu finalmente consegui guardar 300 mil [PD], então eu imediatamente escolhi a [Fornalha da Malícia]. Caçar ativamente as Feras Demoníacas que acabavam se aproximando da ilha flutuante provou seu valor.

Eu estava pensando em guardar as [Pedras Mágicas] que eu consegui para poder criar Ferramentas Mágicas mais tarde, mas eu acabei priorizando o [PD], então eu deixei o |Calabouço| os absorver.

Até algo tão fraco quanto uma Serpe Menor me garantia cerca de 20 [PD]. Valeu a pena fazer o |Calabouço| absorver todo o meu estoque.

A [Fornalha] absorveria qualquer malícia nos arredores e converteria tudo em |Poder Mágico. Ligar ela comigo efetivamente produzia um ciclo infinito junto a um inesgotável suprimento de |Poder Mágico.

 

  • 12 de abril, 3624

Meu poder aumentava a cada dia como resultado da [Fornalha da Malícia]. Logo eu terei poder o bastante para pôr em prática minha vingança contra o |Reino Raidos|.

Contudo, eu encontrei o que seria classificado como um incidente menor cuja causa eu ainda não pude identificar. As maldições dentro deste meu corpo começaram a ficar ainda mais poderosas. Isso não apresenta nenhum problema, já que eu possuo a capacidade de converter malícia em poder, mas…

Eu posso sentir meu ódio crescendo, dia após dia. Eu posso sentir ressentimento se acumulando dentro de mim e atingindo alturas desconhecidas.

 

  • 3 de novembro, 3624

Eu comecei a passar por momentos em que não tinha qualquer lembrança. Talvez isto seja causado por toda a malícia que reside dentro de mim?

 

  • 7 de agosto, 3625

Eu notei algo estranho hoje. O Devorador de Almas assumiu a forma de uma criança como resultado de uma razão peculiar que eu não tenho a menor compreensão.

Eu me lembro que ele era um gigante de dez metros há apenas alguns dias…

Parece que ele se livrou de qualquer excesso em seu corpo. Embora ele possua uma altura muito menor, suas capacidades mágicas mais do que dobraram em compensação.

Ele assumiu uma forma idêntica à minha própria antes da minha transformação. Eu não posso decifrar se isto aconteceu porque ele foi criado com minha magia, ou se isso era simplesmente um resultado de ele ser minha prole. Que interessante.

 

  • 24 de fevereiro, 3626

Como eu não tenho lembranças dos últimos sete dias, eu decidi investigar ao inspecionar os registros visuais do |Calabouço|. Eu não posso imaginar o Demônio atrás da tela como eu mesmo.

O que foi refletido dentro dos registros do |Calabouço| não era nada além de um verdadeiro Lich, um ser que poderia apenas ser descrito com as palavras violento, cruel e brutal.

Eu senti que eu logo seria engolido pelo que estava vendo diante de mim.

Aquilo, contudo, deve ser perfeitamente aceitável por si só.

Se eu vou trilhar o caminho da vingança, então simpatia será apenas um obstáculo. Meu outro eu irá certamente ser capaz de satisfazer minha sede por vingança de uma maneira ainda mais cruel e horripilante.

 

  • 6 de outubro, 3626

Minha perda de memória continua a piorar. Agora, eu só posso me lembrar do que aconteceu em dias alternados.

Meu plano, no entanto, está progredindo o mais suavemente possível. Eu aumentei em Level enquanto fortalecia meus subordinados. Eu finalmente acumulei poder o bastante para derrubar o |Reino Raidos|.

Me falta a proeza para superar o |Reino| em uma guerra aberta. Entretanto, a ilha flutuante irá permitir que minhas tropas peguem o |Reino| de surpresa. Eu devo invadir a capital e assassinar a Família Real antes de arrasar a cidade e transformá-la em um mar de Soldados Mortos-Vivos.

Em breve.

Em breve, meu plano vai se realizar. Eu preciso de apenas meio ano.

O mundo irá descobrir sobre a profundidade da minha malícia.

 

  • 19 de março, 3627

Hoje, eu recuperei minha consciência pela primeira vez em meio ano. Há muito tempo eu entreguei o assento como hospedeiro primário desse corpo para o outro.

Mas eu não me importo. O |Calabouço| progrediu da forma que eu desejava.

Há, no entanto, um item que me incomoda. O caminho que eu trilhei é realmente um que me foi preparado pela Deusa?

Acontece que o primeiro dia em que eu acordei é coincidentemente um dia em que o |Calabouço| foi objeto de uma invasão. O Necromante retornou, e com ele veio uma companheira.

A companheira do Necromante era uma garota adorável. A idade dela era próxima da minha logo antes da minha transformação. Ela possui grande poder para sua idade; sua maestria com espada não é nada além de excepcional.

Meus olhos me traem; eles são incapazes de acompanhar os movimentos dela.

Deve ser ótimo… ter companheiros, amigos… eu mesmo nunca tive essa experiência, pois eu nasci na escravidão e tive essa oportunidade negada. E é provavelmente por essa razão que ela quase parece brilhar.

Eu desejo que ela não pereça… mas eu duvido que meu desejo seja plausível.

O grupo atravessou o |Calabouço| com um ritmo incrível. Será que eu serei derrotado por eles?

Considerar a possibilidade me deixa com um humor indescritível. A perspectiva alegre da minha alma alcançar liberdade contrasta com a irritação que surge da potencial destruição de meus planos.

Eu desejo ser vencido? Ou eu desejo continuar vivendo?

Eu não posso encontrar a resposta.

Eu sinto como se meu encontro com o Necromante e a garota fosse obra do próprio destino…

Eu me arrependo de ser incapaz de testemunhar o desfecho de nosso encontro. E assim, eu me pergunto…

Em que cena eu irei despertar a seguir? Não, eu irei mesmo continuar a despertar?

Meu querido leitor, quem sabe você seja ele? Jean Dovey? Ou talvez a Garota-Fera que viajava ao lado dele?

Nesse caso, eu tenho apenas uma coisa a dizer.

Eu estou feliz que foi você quem sobreviveu ao nosso encontro.


[1] Alterando “Deus do Caos” para “Deusa do Caos”.